Flanar

Não sei como vim parar aqui. Talvez dentro de uma tempestade, um furacão como aquele em que Dorothy voou. Às vezes doí. Às vezes sinto cocegas no estomago. Nem sempre quero engolir o mundo, mas cuspi-lo, vomitar. É meio montanha russa. Às vezes é agradável. Às vezes é só fumaça e álcool com um pouco de dança desengonçada em que meu corpo balança de lá e para cá. Eu ando sem relógio, nunca tive um. Flano só para ver as rachaduras das estruturas, o encardido, o musgo e encontrar vida onde não se é esperado. Trepo na minha sombra quando ela foge a galopes e quase caio, meio zonzo. Gargalho como um louco solitário. Nada tem nenhum sentido exato que eu não possa distorcer e rir por pura diversão. Quando ouço Sigur Rós sinto meu corpo levitar e gosto tanto dessa sensação que poderia deixar tocando em repeat, levitando, levitando…. Tenho andado meio entorpecido. Distante demais dessa terra barulhenta numa vã tentativa de não contaminar minha essência, apesar de nem saber do que ela é feita ou do que ela se alimenta. Mas só às vezes. É raro e tem gosto de chocolate que vai derretendo na boca aos poucos.

Por Roosevelt Soares.

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A mulher misteriosa

Uma mulher de salto alto agulha, com uns 15 centímetros, fumando como se fosse a coisa mais charmosa do mundo, vestindo um casaco que imitava pele, adentrou o bar que eu estava. De cabelos afro, ela retirou o casaco e os sacudiu como se fosse um comercial de shampoo, em câmera lenta. Ela caminhou como se desfilasse e foi até a juicebox colocando um som do anos 80, bem agitado, para dançar. Eu estava no canto da juicebox, quase escondido, mas hipnotizado por ela, atrai seu olhar e ela e me chamou. Eu já tinha tomado algumas doses alcoílicas e fui até ela com bastante vergonha apesar do álcool me dizer para me entregar aquele momento. Eu, apaixonado pelos anos 80, dançamos como se o tempo tivesse retrocedido.Foi um instante de levitação! Eu levantei um cigarro do bolso e ela o acendeu com a boca encostando na minha, de ladinho para que a chama escorresse de um cigarro para o outro. Eu não tentei descobrir quem era aquela mulher misteriosa, apenas me entreguei a ela e embarquei em sua energia. Um pouco antes do fim da música ela segurou minhas mãos e me levou até o bar, pedindo dois dry martinis. O seu batom vermelho manchou a beirinha do copo e logo depois manchou suavemente a minha boca quando ela veio em minha direção mirando o meu olhar, sem qualquer permissão para fazer aquilo. Era uma mulher perfeita, decidida, mas eu sabia que também era um travesti que por sorte, caiu nos meus braços, porque eu me sentia o único a acolher aquela mulher especial e a levar ao paraíso. Não papeamos, foi só olhar, dança, sinuca e muitos beijos. Antes de sair, não peguei o seu telefone, apenas um táxi que ela mesma parou. E que surpresa, o táxi tinha me levado exatamente para o seu quarto em Copacabana. O resto da noite não preciso contar, mas posso garantir que foi única.

Por Roosevelt Soares

Wait…

Quer namorar comigo? Espere…me de um tempo… Preciso ajudar aquela idosa atravessar a rua, desviar de umas pessoas que andam apressadas e de cara fechada, chegar ao meu trabalho, apertar teclas de um computador, esperar o sino da capela da praça em frente tocar seis badaladas, sair pela escuridão, desviar de uma centena ou milhares de pessoas que passam apressadas e lotam vagões e ônibus, ficar em pé ouvindo música, olhar ao redor te procurando, abrir a porta de casa, entrar, abrir a janela, olhar as estrelas, contar as poucas que vejo através do vão que se forma entre os prédios, sentir um calafrio, ouvir a sirene de uma ambulância passando na rua, fugir para o meu quarto, fumar um cigarro enquanto coloco uma música para tocar na vitrola que herdei de vovó, dançar sozinho até o telefone tocar, eu dizer alô, ninguém responder, e cismar que era você, adormecer no sofá depois de umas cervejas e remédios, ao lado do telefone, com a agulha da vitrola agarrada num refrão de música romântica que eu não consigo esquecer. – “Sim! No sonho sempre você me pergunta e eu respondo de pronto que sim. Feliz dia dos namorados meu amor!” Mas antes… espere…preciso que os dias girem, que os planetas se alinhem novamente, que Saturno esteja em oposição ao Sol e que naquele exato momento eu consiga te reconhecer. Mas antes…espere…

Por Roosevelt Soares.

Solteiros caminhantes

Se me perguntam, digo que estou casado e saio pela esquerda, bem de fininho, rindo baixinho enquanto pego outra taça de champanhe que passa por mim e desapareço em meio a multidão. Não que eu goste de mentir, mas porque preciso desses momentos onde andarilho sozinho com meus versos, ideias, projetos e mentirinhas etílicas aqui e acolá. Um dia talvez reencontre aquele fogo do amor, pois o da paixão eu já tenho todos os dias ao meu lado. Aliás, por todos os lados. A cidade é linda não é. Em cada esquina uma paixão, como diria meu amigo amado. Mas na cama, é solidão-entretida, horas de viagens internas por pensamentos que precisam ser mastigados e digeridos. Com licença, estou em mutação – me conforto mentalmente. Não que eu goste ou desgoste. Não é sobre isso. É sobre finalmente estar bem e saber que vive exatamente o caminho que deveria estar e bem antes do encontro Dele. O próximo, a fila anda – diria uma outra amiga mais malandra. Por que a vida é assim. Um momento nos leva a outro e num piscar de olhos, tudo acontece de novo. Um salve aos casais. E um salve especial aos solteiros caminhantes.

Por Roosevelt Soares.

PESADÃO – Curta-Metragem



Lancei no dia 1 de junho no Facebook a primeira fase da campanha de financiamento coletivo do meu curta-metragem e hoje estou lançando o site do projeto PESADÃO, um romance em tom de terror psicológico. Se quiser conhecer mais sobre o projeto e colaborar com o cinema independente, e talvez, até fazer parte da figuração ou elenco de apoio do curta, entre no site e fique ligado.

www.pesadaocurtametragem.wordpress.com

Bem-Vindos ao Mundo das Almas

Você só morre quando tudo aquilo que você realmente desejou, aconteça!

Alguns pedem coisas muito pequenas. São seres iluminados!

Outros pedem muitas coisas. São seres incautos!

Tudo é experiência e se algum dia você puder retornar pro lugar que estava antes de nascer, depois da morte, ou antes dela,- no meio das duas -e pudesse escolher como num parque de diversão das almas, que experiência precisa ter aqui na Terra. Talvez ganhe bônus por cumprir cada uma delas e as experiências mais difíceis e profundas, ganham muitos bônus.

Uns buscam morte prematura, do feto a juventude. E parece que tudo ficou incompleto, muito potencial desperdiçado. Outros são almas novas, crianças  que querem tudo do tudo, agora e com muita diversão.

Cada um vive a escolha que lhe cabe, desejados antes de nos materializar, conforme as necessidades da alma.

Alma,

Que Vaga,

vaga para encontrar o seu caminho de evolução.

 

Por Roosevelt Soares

Tecnoxamanismo mistura rituais indígenas e tecnologias

Um ventilador com lâmpadas de led acopladas a suas pás promove um show de luzes, enquanto drones equipados com incensos se revezam ao defumar o ambiente que, por sua vez, é musicado com trilhas trabalhadas, aguçando ao máximo os sentidos dos participantes. Os encontros da rede de tecnoxamanismo, que surgiu como um movimento online e se comunica na maior parte do tempo por uma lista de emails, recorrem à sabedoria indígena para promover a reconexão com a natureza e com os sentidos.

— A ideia é provocar, sem drogas, um estado alterado de consciência. Nos festivais, chegamos até a usar o chá de Ayahuasca, mas não faz parte do cotidiano, não é um princípio nosso. Os rituais são regados a performances de música, corpo, lavagem dos pés e banhos. Não é uma festa, mas um lugar onde o seu corpo é catapultado para uma experiência sinestésica profunda — explica a psicóloga Fabiane Biorges, de 40 anos, uma das pioneiras do movimento no Brasil.

Ao mesmo tempo em que cria uma maneira própria de vivenciar a espiritualidade, o grupo rejeita rótulos como religião, doutrina e seita, já que tem como objetivo justamente o desprendimento de padrões da cultura atual. Fabiane, que ajuda a mediar discussões e a organizar reuniões presenciais entre as 150 pessoas cadastradas na rede no país, acredita que o contato com os índios, uma das características mais importantes do movimento, ajuda a despertar a noção de coletividade e de comunidade. Assim, mesmo eventos realizados em grandes centros urbanos contam com a presença de representantes da cultura indígena – o contato é feito por telefone ou na web, e garante uma experiência tecnoxamânica completa .

À esquerda, com um pano azul nos cabelos, Fabiane participa do I Festival Internacional de Tecnoxamanismo. Entre as participantes do grupo, está a pajé Jaçanã Pataxó

— A verdade é que estamos em formação e, por isso, não temos uma metodologia. O movimento existe em todo o mundo, em vários países, mas a nossa vertente vem do software livre, independente de grandes organizações. Temos uma cultura libertária que reúne pessoas com conhecimentos variados — afirma.

O coletivo OVNEY – nome do grupo – se reúne em torno da fogueira: tradições indígenas promovem o sentimento de grupo

De acordo com a psicóloga, o excesso de contato com a tecnologia atrapalha a capacidade de percepção, e é por isso que, durante as reuniões, os sentidos recebem tanta atenção. O objetivo das atividades é promover transformação, tirando as pessoas do “modo automático” e despindo-as de preconceitos – e muitas vezes das próprias roupas. Em alguns casos, participantes ficam tão confortáveis com a ausência de limites que acabam tirando as peças.

— Queremos recuperar essa sensibilidade que perdemos, amenizar a condição de humanos destruidores e fortalecer a nossa ligação com a terra, com as plantas, com a água. É um movimento de resgate espiritual, mas sem caráter religioso. Aprendemos a plantar, a fazer jarros de barro, por exemplo, a produzir certos objetos, mesmo tecnológicos, sozinhos. É um movimento de transformação de gente — revela.

Os encontros acontecem eventualmente e são internacionais, com convites publicados em português, inglês e espanhol. No ano passado, o grupo conseguiu juntar R$ 15 mil no site de crowdfunding Catarse-me para promover uma imersão em Arraial D’Ajuda, na Bahia, perto de uma aldeia Pataxó – e da natureza. Lá, ofereceram o contato com câmeras e outros aparatos tecnológicos, enquanto puderam experimentar danças, lendas e outras práticas comuns entre o povo.

Por Carla Nascimento | Extra