Os lençóis

Entrei naquele quarto esfumaçado de cigarro, fétido, meio bagunçado porém vazio. Faltava alguém. Fui cuidadosamente até a cama de lençóis revirados, e me deitei, cheirando cada espaço daqueles tecidos. Tinha o seu cheiro! Meu pau ficou duro quando o encostei na cama, de bruços, com a cabeça afundada naquele travesseiro, voltando a senti-lo pesado em minhas costas, dentro de mim, cavando bem fundo, falando putarias ao morder minhas orelhas e salivar por entre os cabelos de minha nuca. Meu corpo sentia sua ausência, mas minha mente sofria de tesão e medo daquilo tudo ter sido só um sonho vívido, de um adolescente empolgado. Estiquei a mão e trouxe do cinzeiro o cigarro prestes a apagar e o coloquei na boca, dando a última tragada, com o filtro ainda molhado por sua baba. As cortinas brancas voaram para fora da janela numa lufada de ar fresco que entrou junto com ele. Com o cigarro ainda pendurado na boca, retirei e apaguei enquanto ele se movia em minha direção. Olhei bem fundo em seus olhos. Ele se aproximou com a bermuda volumosa, marcando o seu pau. Eu o acariciei, tentei abrir o zíper e engolir o que viesse dali, mas ele me parou. Se afastou um pouco. Pegou a mala que estava ao pé da cama e de mansinho começou a caminhar em direção a porta. Eu levantei, sem tirar meus olhos dos olhos dele. Caminhei alguns passos e ele se afastou, pegou na maçaneta com a mão livre e suspirou profundamente pouco antes de atravessá-la e me deixar preso num ontem que não teria fim tão cedo em minha cabeça. Acendi outro cigarro, me atirei a cama e com o meu caralho ainda duro, me masturbei pensando no hóspede que até há sete dias, era só mais um russo gostoso passando férias de sua vidinha familiar, de pai aventureiro, nômade sem porto que saciasse suas vontades. Ao menos eu tentei.

Por Roosevelt Soares.

Anúncios

Sociedade dos Anônimos

50ccb2987f7910cee78e331ece8335ab--male-cosplay-leather-men

SOCIEDADE DOS ANÔNIMOS

Estava eu deitado no escuro do meu quarto, somente com as portas duplas que dão para o quintal traseiro da minha casa, abertas. No pátio, só uma lâmpada fria acesa, que da onde eu estava, era atravessada por um varal cheio de roupas que ao balançar dos ventos, produzia um efeito em minha face, ora com um gordo facho de luz invadindo o meu rosto e ora jogando me na completa escuridão. Mas nada disso eu percebi na hora. Na hora, eu estava no smartphone caçando uma foda rápida para aquela noite. Sabe, um desses aplicativos que todo mundo usa mas finge que não. Então, foi assim que conheci Jafar, um nome secreto que só servia para esconder seu nome de batismo e colar no personagem iraniano que ele forjava. Com ele e qualquer outro anônimo, a foda, tem regras bem claras. O combinado é; quem tem local, gíria para “lugar para foder a vontade”, diz o seu endereço e a hora marcada. Eis que um deixa a porta aberta e veste uma máscara que tapa totalmente o rosto. O outro, chega com a mesma máscara, vestindo um casaco de capuz preto sobre a cabeça e entra. Os dois se beijam pelo único buraco da máscara e fodem por duas ou três horas de pirocadas, malabarismo e gozo. Sem precisarem nem saber quem são. Falam pouco de si. Só putarias que vem do âmago dos anônimos são ouvidas. E quando acaba, o que veio vai embora só tendo um endereço que ele nunca vai sentir vontade de voltar pelo simples motivo de que nas próximas 24 horas ele terá feito isso no mínimo 4 vezes, em locais diferentes e assim seguira. Não há culpa. Sentimento. Não é porque o sexo foi ruim. Mas também por um comum acordo entre esses cavaleiros anônimos que literalmente se cruzam por aí com total liberdade. Chegamos a era da foda anônima. E de repente, o vento parou no quintal de minha casa. E só então percebi que as roupas do varal pararam de balançar e meu quarto ficou a meia luz. No reflexo, tinha uma cueca pendurada separando a luz e a escuridão do meu rosto. Pensei nisso só por um segundo, enquanto sentia o vazio daquele homem estranho dentro de mim, latejando, vivo. Eu suava. Tirei a máscara e fui tomar um banho. Tive forças ainda para bater uma bela punheta por ter vivenciado essa nova experiência, ter entrado para a rede de anônimos, e em termos de fodas entre homens e fui fumar um baseado. Já pensando no próximo que viria a encontrar; dessa vez usarei algemas…

Por Roosevelt Soares.

IMPULSOS

Escreva em caixa alta! Grite! Ligue o som no máximo – ajuste bem o grave. Deixe os vizinhos chamarem o sindico, a polícia. Dance desengonçadamente. Beije com lingua de polvo e complexo de aspirador de pó. Use uma droga. Se intorpeça. Corra nu. Fique sóbrio e sinta o horror. Penetre alguém! Seja penetrado! Trepe aos berros! Peça para ser sufocado até ficar roxo. Respire fundo. Brinque de roleta russa – só você, só uma bala! Espalme os dedos da mão sobre uma superfície reta e bata uma faca afiada e ponteaguda com velocidade acertando os meios dos seus dedos. Lamba uma navalha – mas não se corte. Suba no lugar mais alto e imagine ter asas – sinta o vento e o impulso de se tacar. Jogue ovo podre na casa ou em algum político. Deixe um buque de flores pra alguém que você odeia – e assine. Siga alguém sozinho no meio da escuridão. Sente na mesa de algum grupo e lance uma questão filosófica profunda – faça cara de psicopata. Fure seu dedo com uma agulha e prove do seu sangue. Deixe gotejar num papel branco e incontre um significado impossível. Agora volte a dormir!

Por Roosevelt Soares.

 TEXTO OBSCURO CAP.3

​O que é a morte se não o desligar – se por completo do seu corpo, mente, lembranças, matéria, do planeta, do Cosmos. Não me parece tão ruim! Aqui sentado ao lado das árvores secas de outono, caem, e parece – me uma vida inteira acontecendo conforme o seu cair. A única diferença – e não tenho certeza disso – é que parece que caímos com mais cor, porém com a mesma resiliência. O que fica é uma cama de retalhos que retalham a memória.

O meu deitar é transversal, gosto de ocupar e sentir as duas metades da cama e me cobrir só até a altura do umbigo – um pouco acima, um pouco abaixo.Eu disse para a minha psiquiátra que a maconha e o álcool quando bem dosados, tinham me devolvido, sendo medicado diariamente, me dando a sensação de ser um zumbi. Que aquilo – a maconha e o álcool -, acordaram, me devolveram a criatividade e agora ela estava berrando com fúria contra a sua prisão. Veio para explodir! 

“They tried to make me go to rehab, I said, “no, no, no”. Yes, I been black, But when I come back, you’ll know, know, know”, eu dançava ao som da minha playlist e dançava mais ainda em cima do local onde eu escolhi para morrer enforcado. É em frente a um espelho que se vê dos pés à cabeça. Eu sempre me via ali refletido, enforcado, mas ainda vivo, dançando com a corda o pescoço.

Minha cara Amy, não me leve hoje, porque possuo inveja de você. Não dá sua dramática vida, mas da sua prematura morte. Amy, estou falando coisas desconexas. Estou afundando. Extremamente deprimido. Mas ainda consigo dançar no escuro dos meus olhos fechados – será um convite para a escuridão? Não sei porque exatamente estou assim, pois mesmo com motivos concretos ou não, esse é um estágio que sempre entro e me perco da trilha de volta pra casa.

Minha corda para o enforcamento já está pronta e já afixei um gancho de rede de balançar, na parede – espero que esse me aguente e não me derrube no chão como da última vez. Sabe, não que eu vá me enforcar agora, mas só de saber que o gancho está ali, a corda pronta, já me tranquiliza.

Não posso morrer agora. Minha família está passando um drama. Meu pai esta fazendo hemodiálise, minha mãe de 67 anos está se esforçando pra cuidar dele e de toda a família. Como uma âncora! Não posso partir agora e deixar mais esse rombo na família. Mas a minha real vontade é de me mandar. Não sei como lidar com isso. Se grito. Choro. Escrevo….

Por Roosevelt Soares

TEXTO OBSCURO CAP.2

Eu o via ali, sempre sentado no sofá vermelho da varanda. Ele sempre estava fumando. Ele iniciava com maconha e terminava com um cigarro – sempre nessa ordem. E nunca o via sem seu casaco preto de capuz. Pouco se via da sua pele muito branca e o cabelo sempre colorido. Era um garoto misterioso e sombrio, que as vezes saia na escuridão de luzes apagadas, com morcegos voando em volta do sofá vermelho e ele se sentava ali no meio e cumpria seu ritual de madrugada – talvez tivesse com insônia. Disse o vizinho que observava na espreita da sua janela do segundo andar que da de lado para quarto do suicida. Continuou – nunca pensei que ele se suicidaria ali, dentro do seu quarto. Fiquei chocado com a notícia – confessou o vizinho ainda atordoado, por morar ao lado de um jovem suicida do qual nada pode fazer para ajudar. – Soube que ele foi encontrado dormindo, ao lado de um boombox tocando músicas calmas. Pelo menos parece que ele não sofreu – continuou devagando o vizinho – mas o seu celular estava carregando, me pergunto porque se não haveria amanhã. Pra mim isso me diz que ele decidiu isso hoje a tarde, depois de colocar o celular pra carregar… caramba, podíamos ter salvo ele… ou… na verdade o boombox era via bluetooth…putzs…É isso. O celular tinha que ficar carregando para a música não parar. Provavelmente ele pensava que demoraria para morrer, mas o horário do óbito diz que só demorou meia hora. Soube também que ao seu lado ele havia terminado com três pacotes de cigarros e havia bingas e cinzas por toda a parte…como as que ele é agora. Qual teria sido o seu último pensando? 

Nesse momento. Eu. O escritor. Preciso interromper a narrativa para dizer qual era o seu último pensamento porque foi eu que escrevi e estou lá, no meio da cena.

Ele já não pensava mais em nada. Seus pensamentos da realidade que o cercava foi rapidamente tomada por delírios e sua mente estava há quilômetros daquele quarto. Sem dor. Sem sofrimento. Apenas leve, flutuante, como a mente de um recém nascido.​

Por Roosevelt Soares.

TEXTO OBSCURO – CAP.1

TEXTO OBSCURO – CAP.1

O lugar físico, depois de você, mais egocêntrico do mundo é o seu quarto – sua cama no centro ou de lado, todos os objetos ao seu redor e, voltados para você, como discípulos de um ser supremo, o criador. Ali você deita e se torna o centro do mundo. Você é capaz de controlar o passado, o presente diante de ti e construir o seu futuro – ilusório ou não. Você sonha e isso é como ser um Mago. Eu gosto de visitar quartos porque eles falam tudo sobre quem confia dormir ali. Eu gosto pouco de quem se mata em seu próprio quarto, mas prefiro aqueles que em seu último ato, escolhem morrer longe de seus quartos, fora de suas zonas de conforto. Ah…eu gosto de analisar suicidas, acho que são as pessoas mais interessantes do planeta. Mas voltando ao assunto, o cenário que escolhem os suicidas, me pergunto porque, não morrer numa suíte presidêncial do Copacabana Palace ou do Fasano, tendo a melhor vista do Rio de Janeiro, a melhor vista do mundo pulsando por todas as janelas ao seu redor, explodindo existência e te tentando a ficar, mas você só querer sair dali num saco do IML, sem pagar a conta de nada, morrer caloteiro ou aventureiro, você escolhe, vilão ou herói.

Por Roosevelt Soares

Sobre ele

Ele me abraçou e silenciou minha boca com um beijo longo e molhado. Sem ar, abri os olhos tentando enxergar, se afastando lentamente, mas sendo segurado pelo rosto com suas mãos grossas analisando toda minha fisionomia ao mesmo tempo em que deslizava os dedos ao afastar meu cabelo o bagunçando. Lugares mudos entre a barba cerrada e o franzir da testa, viril e decomposto com um sorriso indecente de menino guloso. Há dentro de mim um novo desejo de destruir, uma ligação à natureza selvagem e a página descoberta, em aberto, pronta para ser escrita junto a boca procurando conter as coisas que acontecem nas cabeças em chamas. A pele e o que se mistura. O dentro indecifrável. As bocas de mãos dadas. Mutua posse. À pouca gravidade e o recíproco calor de corpos se roçando como feras.

Por Roosevelt Soares