Estado de Anarquia

Quando o sol vai se pôr, eu costumo estar pedalando pela orla de alguma praia de Niterói, debaixo daquele céu com fundo alaranjado e tons de vermelho ondulado pelas rajadas de ventos que varreram o ar. E consigo sentir toda essa terra indígena gritando e aplaudindo o pôr do sol, que chega também junto as luzes das cidades do outro lado da Baía da Guanabara se acendendo. E todas as pessoas se deslocando na imensidão. Eu sei que vai ter tiroteios, assaltos, que eu inclusive posso a qualquer instante virar mais uma estatística. Aqui é assim. A beleza da natureza e o caos da humanidade. A anarquia ocupa enormes espaços. E eu me torno consciente de que a essa hora, as crianças e jovens das favelas estão chegando de suas escolas ou arrumando espaços para brincar, em meio a fios, vergalhões, antenas de todo o tipo. Você não sabe que Deus é a constelação de Órion? Uma das oitenta e oito constelações modernas. Está localizada no equador celeste e, por este motivo, é visível em praticamente todas as regiões habitadas da Terra, principalmente nas noites do hemisfério sul. A constelação de Órion é notável pela presença de muitas estrelas brilhantes, que formam figuras de fácil reconhecimento. Entre elas figuram Alnitak, Alnilam e Mintaka, três estrelas que constituem o Cinturão de Órion, conhecido popularmente como as Três Marias. Vejo as estrelas do entardecer e sei que elas estão morrendo, que talvez algumas já estejam até mortas, mas ainda estamos recebendo o seu reflexo pois demora anos luz para se apagar o brilho de uma estrela. Isso quer dizer, o brilho delas sobrevive muito mais do que sua existência. E por algum motivo nessa noite essa ideia me conforta, de sermos feitos da poeira das estrelas, como fala meu astrônomo americano favorito, Carl Sagan. Peço então que algum ser cósmico superior abençoe essa terra, de leste a oeste e de norte ao sul. Ninguém sabe o que pode acontecer agora. Mas todos seguem suas vidas com a intenção de acordar vivo no dia seguinte e honrar seus compromissos. Com as luzes das cidades, Rio e Niterói acesas, pedalo lentamente pela orla, sentindo um vento fresco no rosto, tocando minha pele, esvoaçando fios de cabelo. Tá tudo ruim! Mas de alguma forma o carioca, o brasileiro, vai tirando pingos de felicidade ou qualquer coisa parecida, do seu cotidiano, família, amigos e o pouco de lazer que ainda lhe restam. É meio assim que me sinto hoje. Me sinto impotente e até com vergonha de alguma forma eu estar bem.

Por Roosevelt Soares.

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MEU PRIMEIRO AMOR

Ainda éramos adolescentes. Eu morava em Minas Gerais nessa época. E brincava muito com uma dupla de irmãos gêmeos. Eles eram lindos. O Yuri era o mais falador. Adorava contar causos, piadas e parecia mais interessante do que é, porque sabia concentrar a atenção nele. Ele tinha um rostinho quadrado, lindo, como o do irmão e um cabelo negro bem lisinho, bem cortado, com uma franjinha que às vezes caia charmosamente em seu rosto. Eu adorava ele. E o Yago, seu irmão, era por ele que eu sentia um enorme tesão.

Apesar de gêmeos, Yago era um garoto mais encorpado, tinha o corpo todo desenhado, mais musculoso que o Yuri. Yago era também mais silencioso. Não era de falar muito. Tinha as sombrancelhas levemente mais groças que a do Yuri e seu cabelo era cortado a máquina, bem baixinho, o que dava ainda mais um ar de masculinidade, meio malvado quando fechava a cara e franzia a testa, e ele sempre vazia isso, talvez sentisse que estranhamente isso o tornava mais sexy ou, seja só um tique mesmo e eu é que estou viajando, apaixonado. Afinal escrevo isso hoje, homem adulto. A memória já não é mais a mesma.

Na época, tínhamos todos 13 e 14 anos, no caso dos irmãos. Eu já sabia que era gay. Já tinha me esfregado com alguns amiguinhos no bairro onde nasci, no subúrbio do Rio de Janeiro. Sabe, praticado a famosa “meinha”, que é quando um amigo toca punheta para o outro. Mas eles não eram gays sabe. Naquele época, morando em Minas de passagem, meu pai tinha sido transferido para trabalhar lá pelo período de um ano e depois voltaríamos para o Rio. Porém no momento que conheci Yuri e Yago, me deu vontade de ficar lá para sempre, só para poder ver os dois todos os dias, ficando mais homens e belos e quem sabe, aumentando minhas chances de tentar conquistar um deles. Quem sabe os dois?

Confesso que os hormônios da idade mecheram muito com minhas fantasias adolescente. Foi aí que conheci a Bia. Peça chave nessa história. Nós morávamos numa cidade do interior, nos anos 90, definitivamente aquela cidade não era nem um pouco amigável com gays, de qualquer espécie. Mas a Bia era nossa amiga mulher macho. Não assumidamente gay. Mas eu sabia que ela era. Meu radar gay tocou com ela, que tinha 14, quase 15 anos. Ela andava de skate com Yuri e Yago. Eu tentava seguir eles. Não conseguia me equilibrar naquele troço.

Só entrei mesmo no meio desse trio quando chegou a moda dos patins. Aí sim eu sabia que conseguiria seguir eles, pois tinha equilíbrio e a coragem, na verdade a injenuidade de um garoto de 13 anos que se acha imortal e por isso se taca em tudo de cabeça, sem medir muito as consequências. Então eu calçava o par de patins com eles, ficava em pé e saíamos patinando pelas estradas daquela cidade interiorana, passando pelo meio de carros, pegando carona ao se segurar na traseira de ônibus e caminhões. Uma farra ou uma aventura perigosa. Tanto fazia…

Foi nessas andanças que um dia fomos até a antiga usina de mineração de ferro e a Bia tinha uma tia com casa lá, onde poderíamos nos banhar numa nascente e depois retornar para a cidade, que ficava há uns 8km dali. Era um local de floresta. Eu fiquei receoso, afinal não tinha avisado a minha mãe que iria demorar, e naquela época, só telefone fixo e no meio do mato não tem. Tentei então desistir, inventar alguma desculpa, mas o Yuri e a Bia colocaram pilha para que eu fosse. O Yago disse que iria tomar banho na nascente só de cueca, ou nu, se desse na telha dele, e a partir daí, minha mente acelerou junto com o coração e meus desejos vieram com tudo. Eu finalmente iria ver Yago completamente pelado, ou de cueca, tanto faz.

Tiramos então os patins, vestimos os calçados que estavam em nossas mochilas e seguimos uma trilha no mato até a casa da tia de Bia. Chegando lá, a casa estava fazia e ficava mesmo no meio do mato. A eletricidade da casa vinha de uma engrenagem por onde a água da nascente escorria, girava algumas coisas e assim se fazia a luz. O lugar era lindo. Sempre amei a natureza. Tinha árvores frutíferas por todos os lados da casa, feita de madeira e pau a pique, onde se ouvia o barulho do laguinho que se formou na nascente.

Yuri parecia ter uma queda por Bia, que nem desconfiava, sapatão em início de carreira, quando se descobre, só quer saber de vulva, vagina, bucetas, tetas, tipo isso. Penso eu, gay, um tanto tapado e tarado desde pequeno. E onde está Yago? Me dispersei em pensamentos e o perdi de vista por alguns segundos. Ali! Meu príncipe – pensei. Vamos nadar? Praticamente impôs Yago, que só falava em tom um tanto autoritário – o que eu adorava. E daí? E daí que fomos!

Entramos em outra trilhinha no meio da floresta e andamos só por uns dez minutos, com o Yago na frente, eu atrás, Bia e Yuri na sequência, formando uma fila indiana. De repente surge um lago in-crí-vel, que nos recepcionava com raízes que corriam pelo chão que ia submergindo. No meio da floresta fechada. Água geladíssima, num dia gelado.

Entrei. Fui seguindo o Yago, que descalço entrava no lago só de cueca branca e um casaco que ele estava prestes a retirar. Ele estava de costas para mim, sua bunda, marcada naquela cueca, me guiava. E só aí, percebi que Bia e Yuri, haviam sumidos. Será que Bia não é sapatão? Estive errado esse tempo todo? Ou ela estaria me ajudando, nos deixando sozinhos? Vai ver o radar dela despertou também comigo e ela sacou tudo…Bunda! Voltei a realidade com a cena da bunda do Yago de cueca branca e agora molhada, grudada e transparente.

Caminhando no lago, Yago chegou na altura de sua cintura, ele já tinha tirado o casaco e estava pendurado numa árvore caída, seca, que atravessava o lago. Ele mergulhou. Eu parei com a água no joelho. Ainda estava de bermuda – percebi. Rapidamente retirei e fiquei só de cueca e camisa – tinha vindo do Rio de Janeiro, não tinha levado casacos, só em Minas que descobri o que era frio e que quase sempre tinha que sair de casaco.

Yago se levantou do mergulho e olhou para dentro dos meus olhos, franziu a testa e foi abaixando seu olhar até parar na minha cueca estufada com minha ereção. Ele então riu. Desviou os olhos de mim e só então percebi o quanto ele era lindo também de perfil até ele se virar novamente e me ver tampando com as duas mãos a minha ereção.

– Ou, fica calmo. Acontece com todos nós!

E o pau dele também estufou sua cueca, me trazendo um senso de proibido e gostoso. Me acalmou. Pela primeira vez me senti compreendido e não mais sozinho no mundo. Ficamos ali, um olhando o outro, alisando por cima da cueca os nossos jovens caralhos. Nada mais aconteceu, só foi a melhor experiência da minha vida até aquela data. Quando ainda eramos adolescentes. Poxa…isso faz tempo.

Por Roosevelt Soares.

Notas de um ser em reconstrução

Descobri que antes das 11h. eu não funciono bem. Mas quando acordo naturalmente cedo, eu adoro. E que gosto de rotina no dia a dia (isso foi uma surpresa). Gosto de tudo sempre no seu lugar (aquele que eu defini/isso em relação a objetos e coisas). Gosto de organização no meu canto. No canto dos outros não ligo para o caos. A minha cabeça também já fez do caos uma rotina em algum tempo.

Gosto de hora marcada, apesar de nem usar relógio (a não ser do Cel e os das ruas). Sou um pouco procrastinador, porque passo longas horas pensando em 10 coisas ao mesmo tempo, então estou aprendendo e já até evolui bem em focar em uma coisa de cada vez, o que aumentou minha capacidade de realização. Gosto do meu prato de comida exatamente dividido em 3 áreas, metade do prato com uma colher de feijão, um terço de arroz ou duas colheres rasas de arroz, no canto esquerdo, sempre, e no outro terço, proteínas e vegetais, com uma colher de farofa no cantinho esquerdo do feijão. Preciso perder esse toc alimentar rs. Reaprendi a ser solteiro e gostar disso. Confesso que sexo para mim é algo íntimo e de entrega, então não rola mais no primeiro encontro ou com qualquer um, tem que me conquistar (ui, que puritana). Gosto infinitamente mais de corpos com cérebros efervescentes, transgressores, desafiadores do que só a apresentação estética dos corpos. Mas aprendi a gostar de academia, lugar que nunca nem sonhei em entrar, tinha até preconceito, mas entrei quando me vi em uma situação decadente, porque eu tenho um lado autodestrutivo forte, que está sendo domado com lutas diárias. Compreendi que não tenho o mínimo preparo psicólogico para viver em outros paises e perder a chance de ver meus familiares e amigos (sou extremamente familiar) envelhecer, juntos, apesar de saber que um dia vou experimentar algumas temporadas fora do país, por diversão ou aprendizado, mas acho baixo o índice de me mudar de fato para outro país (a não ser que eu pudesse levar e bancar umas 40 pessoas queridíssimas comigo). Não que desgoste de sair da zona de conforto, viver aventuras, conhecer gente nova. Não. Mas não preciso sair do país para ter tudo isso.

Nãoexiste mais festas em boates ou shows imperdíveis. Se eu tiver meio de transporte fácil, grana e saber que vou encontrar no evento um lugar que possa dançar sem esbarrar nos outros ou ser obrigado a pular junto com a massa porque não dá pra sair dali (já vivi isso em metade da minha vida) eu até vou. Porém, prefiro hoje ver na tv, YouTube, escutar no SoundCloud, Spotify, Stories, ligados num bom boombox, no meu camarote em casa, refrigerado, com comes e bebes…Minha bebida preferida é a água de jarro de barro. A segunda preferida é o café. Amo sentar com amigos, beber (e isso inclue água e café ou chá) ou fumar uns e trocar uma infinidade de ideias sobre tudo e todas as coisas. Não chamo mas ninguém de tia. Tenho plena consciência da minha idade e já tenho bastante tias de sangue. Não gosto mais do twitter (acho caduco). E acredito firminente que a arte transforma vidas de forma pessoal e em massa. Notas de um ser em reconstrução.

Por Roosevelt Soares.

O encontro

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Nos encontramos na porta do mercado, na esquina da minha rua. Faltavam cinco minutos para às dez, hora do mercado fechar. Ele estava indo comprar qualquer coisa, eu estava indo comprar cigarro na banca de jornais em frente. Bancas essas que agora vendem de tudo para se fumar, menos a erva, apesar de que, rola um boato que até a erva se for pedida da maneira certa, com um tal aí, você compra. Mas isso não importa agora nessa narrativa; antes de tudo vem o nosso encontro naquela noite. Ele estava só de bermuda e sandálias havaianas brancas, que realçavam sua pele moreno bronzeado. Magro, mas de uma forma sexy, com todos seus músculos se apresentando suavemente sobre a forma do seu corpo. E quando digo de uma forma sexy, não quero afirmar que no geral magros não sejam sexy. São! Não precisamos problematizar isso agora. Afinal, acabei de me lembrar que deixei a água esquentando na chaleira, para passar um café noturno. Pois é. Café me faz dormir. Sempre fui meio ao contrário mesmo, já dizia meus avós. Um embolado de pensamentos que se atropelam. É esquisito explicar. Eu sou esquisito. Mas suponho que isso não seja uma novidade para você. Ou então teria que te insultar e talvez ter que usar o termo “bobinho”, assim, tentando ser fofo enquanto te apunhalo. Mas que coisa. Estou desviando do assunto de novo! Faço isso quando estou nervoso. Estávamos então falando do encontro. Bora lá…Não nos víamos há semanas. Desde quando nos encontramos para ver o pôr do sol de Itacoatiara, fumar uma maconha na pedreira do Costão e papear. Pelo menos essa era a versão oficial. A verdade, é que queríamos trepar, você tá me entendendo? Era nesse nível, na real. Mas rolou toda essa bosta de joguinho da sedução. Eu segui o script porque ele é desses. Se sente uma donzela que deve ser cortejada. Eu ri quando pensei nisso, e ele nem percebeu porque estava como sempre falando só dele e sua nova futura vida de casado. Nesse ponto você já percebeu tudo. Ele queria uma trepada entre dois machos, brincar com outra pica que não seja a sua. Percebeu ou foi uma ejaculação precoce de pensamento meu? Aff. Não me importa. Vou concluir logo para não tomar mais do seu tempo, afinal deixei mesmo a chaleira em casa esquentando a água para poder passar um café noturno. A essa hora ela já deve estar apitando. Mas isso eu não tô explicando pra você não, tecnicamente estou dizendo isso agora para ele. Para você, o que faltou revelar é que em nosso último encontro pegamos fogo, roçamos nossas almas e corpos, e não passou dai. Ele estava se despedindo de mim, e não terminou com o principal: me foder enlouquecidamente! – A chaleira deve estar apitando. Que tal tomarmos um café juntos? Ele até esqueceu o que ia comprar. O brilho no seu olhar revelava só perversões e deliciosos pecados. Fomos a pé até minha casa. Abri o portão, entrando ele me puxou para dentro, enfiou a mão por dentro da minha bermuda, arrebentando o botão que a fechava e penetrou sua língua dentro, no fundo da minha boca. Tateando com as mãos, procurei encontrar o portão e boom…tranquei ele na cara do leitor.

Por Roosevelt Soares.

Ciclos

Essas coisas de abertura e fechamento de ciclos eu acho muito piegas. Mas não nego que eles existem e trazem mudanças e transformações em nossas vidas. Por diversas vezes você passa por tempestades destruidoras e você se pergunta o que fez de errado (o religioso amedrontado, pensa em questionar Deus, mas termina entregando tudo em suas mãos). Aí o tempo passa e de repente você entende tudo. O que você vive, seja bom ou ruim, te ensina, te amplia horizontes. E você se sente curado, respondido, em plenitude com essa pequena dedução da compreensão quando ela pousa suave ou catártica em sua cabeça. Será que o humano já nasce programado para ter fé ou, para buscar e achar respostas (ou ao menos tentar)? Como um viciado? Eu não sei. Tenho teorias que sim. Mas o fato é que hoje me sinto atravessando o portal para um novo e ridiculamente sentimental, ciclo.

Por Roosevelt Soares.

Gente que.

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Gente que acha que: Felicidade é sorrir. Que viajar é geográfico. Que bem-estar é receita de bolo. Que beleza é simetria. Que ter cultura é conhecer países. Que ter boa educado é um certificado. Que ter fé é obediência. Que Deus é religião. Que solidão é ficar só. Que tristeza é doença. Que amor é posse. Que ser rico é acumular coisas de valor. Que valores são coisas. É muito doido…

Por Roosevelt Soares.

ME CHAME PELO SEU NOME

Do título original “Call Me By Your Name”, com 4 indicações ao Oscar, de melhor ator (Timothée Chalamet), melhor roteiro adaptado (James Ivory), melhor trilha sonora (“Mystery of love”) e como um dos favoritos à categoria de melhor filme. A produção é de afastar os mais conservadores, não por se tratar de um “drama gay” pois o filme é muito maior que isso, escapando facilmente dos clichês desse tipo de produção e indo além, por ser um filme que trata da transitoriedade da vida, das conturbadas relações humanas, do primeiro amor.

Escrito por James Ivory (indicado para três Oscar de direção: Uma Janela para o Amor, Retorno a Howards End e Vestígios do Dia) é baseado na obra homônima escrita pelo egípcio André Aciman e conta com a direção do Italiano Luca Guadagnino, sendo esse o terceiro e último ato da trilogia “Desire” de Guadagnino, seguido de I Am Love (2009) e A Bigger Splash (2015, com a impecável Tilda Swinton). O filme teve sua primeira exibição no Festival de Cinema de Sundance em 22 de janeiro de 2017.Tendo como cenário o norte da Itália. A fotografia solar e radiante do diretor Sayombhu Mukdeeprom que rodou o filme em 35 mm. é visualmente maravilhosa, de locações bucólicas, transmitem uma sensação quase sagrada, como uma versão do Éden, paradisíaco e tentador – como na cena de Elio e o pêssego. Todo o filme é um grande prazer estético, nas suas mais de duas horas de projeção, de ritmo lento, recebeu algumas críticas injustas na minha opinião pois a trama elegantemente se desenrola muito bem, ocupada por esse tempo, com jogos de sedução, tentações e incertezas, a receita para se viver um grande amor no verão da Itália de 1983. No Brasil, a estreia foi em 18 de janeiro de 2018. O filme recebeu aclamação unânime, com elogios particulares à direção, roteiro, música e performances, além de ser considerado como um dos 10 melhores filmes do ano pelo National Board of Review e American Film Institute. Na 75ª edição da Premiação do Globo de Ouro, foi nomeado como Melhor Filme de Drama, Melhor Ator em Filme de Drama para Timothée Chalamet, e Melhor Ator Coadjuvante para Armie Hammer. Na 24ª edição da Premiação Screen Actors Guild, foi nomeado para Melhor Performance de Ator Principal para Chalamet.

O filme tem como narrativa central o romance entre o adolescente de 17 anos Elio Perlman (Timothée Chalamet), sensível e único filho da família, que vive em um ambiente intelectualizado e multicultural, onde se fala italiano, inglês e francês, por exemplo, até a chegada do visitante Oliver (Armie Hammer), assistente acadêmico de pesquisa de seu pai, vivido por Michael Stuhlbarg, especialista em cultura grego-romana. Mas as cenas mais quentes estão nos olhares, toques e a interação com objetos como o piano, o calção de Oliver e o pêssego já citado. O nu é valorizado e nobre, permanecendo íntimo somente para o casal. Apesar de infelizmente não acreditar que o filme leve qualquer estatueta do Oscar, por concorrer com outras produções de peso. As performances de atuação me agradam, principalmente a do jovem Timothée Chalamet e a direção é pouco ambiciosa porém o filme é um espetáculo, se não, uma obra prima.

Por Roosevelt Soares.