10 anos depois, por onde vai o underground psicodelico carioca?

Esse texto eu escrevi porque recebi do meu amigo Rodrigo Gomes que agora está de blog novo (clique aqui), um artigo que escrevi em 2009 para o blog antigo dele, é um arquivo de backup, intitulado “NOVOS HORIZONTES – O UNDERGROUND CARIOCA DA SINAIS DE VIDA”, falando sobre os novos caminhos do underground psicodélico carioca. A baixo faço uma retificação, ou melhor, uma reflexão, de como mudei e do que acho hoje, em 2017, quase 10 anos depois, sobre o underground psicodélico carioca.


Cadê os NOVOS horizontes?

Nessa época, em 2009, eu ainda acreditava que o underground da psicodelia aumentaria e seria o nosso forte frente ao mainstream. Que pipocariam festas de 15 em 15 dias, até ser semanal. De fato funcionou por um tempo, mas no fim, virou paraísos artificiais (sem trocadilho com o filme de mesmo nome), um cluster fechado, sem oxigênio capaz de crescer e voltar a ter alguma significância, tendo bilheteria aberta para todo tipo de público. Na real não tinha bilheteria que se pagasse nem com o público fiel e por tanto a coisa quebrou. Foi ai que eu parei de frequentar e decidir me aposentar da “cena”. Eu sou povão e sempre participei da cena oferecendo o meu trabalho, seja como DJ, produção, decorador ou organizando a logística de transportes coletivos até o evento. Ou seja, eu trabalhava com o novo, com o qualquer um (o oxigênio), e quando o velho se estabeleceu como padrão e quase patriarcas, não consegui continuar pois minhas ideias sempre foram muito abertas. O que aconteceu de fato com o underground, é que ainda temos boas e poucas, quase únicas iniciativas, mas de resto, ao invés de aproveitar o espaço fora do convencional, para inovar, experimentar, apenas repetiram o que se faz em festivais, só que de forma reduzida e muitas vezes mal feita. Por tanto não podem ir muitas pessoas, não pode o qualquer um (existe uma seleção oculta), a não ser que esse venha por uma indicação, muito menos fanfas, esquecendo que um dia todos nós fomos qualquer um, fanfas ao descobrir algo novo. O cluster psicodelico se tornou um pequeno movimento hermético, com pequenos intercâmbios entre outros pequenos movimentos herméticos. A minha direção era outra. Eu queria enfase no público, na sua renovação e não nos DJ’s somente. Queria uma psicodelia urbana paralela ao do mato, como acontece em várias cenas estrangeiras, ocupando casas, casarões, galpões, inferninhos, locais públicos. Queria festas coletivas e colaborativas, festas/mini-festivais escolas, onde as pessoas pudessem se oferecer para trabalhar e aprender a produzir festas, para que elas se replicassem e não foi o que aconteceu, com tudo cada vez ficando mais centralizado em crews especificos. Queria uma renovação na decoração, usando exposições, arte de rua, grafites, intervenções de afrontamento, poesia, videografismo, nada perto de só formas geométricas suspensas, ets, lycras e deuses indianos (esse último, por favor né). Um bom exemplo do que estou falando foi o caso da Festa Imaginária, que junto a amigos do falecido fórum Plurall.org, no auge da proibição das raves, não podia se ouvir música eletrônica, fazer festas contendo música eletrônica, e então nós nos reunimos num flashmob na frente da Câmara Municipal, onde se reúnem os políticos do nosso estado e numa certa hora combinada, quem tivesse a senha (que era o horário e o set gravado anteriormente com a participação de vários djs), poderia participar com fones de ouvido, dando play na mesma hora, usando a tecnologia a nossa favor, cada um com um set de música eletrônica e bingo…estávamos fazendo uma rave proibida, bem ali na frente dos opressores, no meio da Cinelândia, uma rave silenciosa, só em nossos fones, mas com malabares, poesia, intervenção artística. Parecíamos um bando de malucos dançando juntos no meio da chuva.  Foi um ato político, ativista! E quando a música se junta a política, ativismo, é extremamente transformador, não só do lado interno da pessoa, algo que a psicodelia prega, mas também do lado externo, de toda a comunidade.

TRABALHO DO VJ ORION

Com a performance da atriz, apresentadora e poetisa Betina Kopp

Eu queria que cada flye fosse uma peça de arte, que cada cor, forma, conteúdo passasse uma mensagem além do primeiro olhar e dos batidos símbolos. Nada pensado só para vender um produto, como comercial de pasta de dente, com todos sorrindo e aquele amontoado de dj’s como se fosse missa gospel.

Eu não queria DJ’s em palcos altos, com cerca dividindo o público do DJ, muito menos área vip. Eu queria oficinas de ciberativismo, aprendizagem do olhar crítico se utilizando do cinema e outras formas de mídias. Eu queria debates filosóficos e políticos, pois como era possível dançar e permanecer no mesmo local onde alguns vão para um acampamento de traços “comunistas/socialista” e fazem doações de alimentos para instituições de caridade, pedem a legalização da maconha e outras substâncias psicoativas, mas criticam cotas raciais, programas sociais do governo, reagem mal a homossexualidade, não votam, e não se preocupam em discutir o país, nem em criar uma ferramenta de carona solidária (o básico), todos indo em seu carro, com sua turminha pro meio do mato. Virou um acampamento de férias, um refugio, nos mínis festivais e em festas, algo ainda não identificado, mas só pelos flyer já assustam.

Flyer de igreja
Flyer de igreja
Flyer de Rave

Tinha que existir formação de grupos capazes de propor o pensar/refletir o seu país, bairro e soluções para ele (com respeito as ideologias de cada um). Eu queria que as drogas que alteram a percepção fossem recolocadas em seu lugar, como opção, e não como a grande atração, drogas, com riscos de se consumir porcarias advindas do tráfico nacional e internacional e por tanto, essencial um grupo que testassem as drogas e informasse sobre a origem e redução de danos, pois sim, a palavra danos representa isso mesmo, ela pode causar danos e precisa ter cuidado, não pode ser usado como em uma corrida para ver quem fica mais chapado primeiro e por mais tempo. Mas o que aconteceu foi tudo ao contrário. Tivemos o fortalecimento do messianismo psicodélico, a louvação do DJ mais do que do público, da droga, da bolha onde todos pensam iguais como artefato de segurança. Quem pensa diferente está de fora! Se formos pensar no passado, o Rock surgiu como contestação ao sistema e as Raves também, porém o rock tornou outro caminho, tendo seus grandes lideres, vozes políticas, ativistas, já na musica eletrônica, em especial a psicodelica, virou uma maquina de produzir “isentões” ou “coxinhas”, que brincam de hippies por um final de semana. Vemos hoje fora o dancefloor, atividades como oficinas de yoga, meditação, permacultura, compostagem, horta urbana…bacana. Mas são sempre as mesmas. Eu já sei disso tudo desde 2003/2005 (quem frequenta há anos já viu isso). Porque não inovar? Formar novos DJ’s e colocar eles(as) para tocar. Criar um grupo com meses de antecedência para criar a própria cerveja que vai ser consumida na festa, talvez até mesmo produzir a própria droga em larga escala (eu sei que isso é ilegal, mas químicos nesse meio não faltam, e brownies ou cookies de maconha plantada em casa, numa cobertura da zona sul, que nós sabemos que existe, cairiam bem, seriam mais limpos, mas sem o objetivo de obter lucros) . Convidar movimentos afros, indígenas, além de facilitar o trânsito e incorporação da música eletrônica periférica, seja ela psicodelica ou naõ…mas ainda continuamos os mesmos… Foi a Enlight, núcleo que ajudei a criar junto aos DJ’s Flek, Erthal (atualmente aposentado), Ricardo (atualmente aposentado), Gui Passos, Felipe Rope (atualmente aposentado) e Caio Dallalana, o primeiro a voltar a investir em festas do underground psicodelica aqui no Rio, isso no ano de 2009, o primeiro a realizar um mini festival 100% colaborativo e sem o objetivo de lucro. Então sou muito grato a eles, tenho saudades e gosto muito dos que estão ai até hoje na frente desse movimento. Mas acredito que para sobreviver as futuras décadas, o bastão deve ser repassado junto com uma nova reflexão sobre tudo, destruindo velhos conceitos para se atualizar e criar novos horizontes.


Post publicado em 21 de abril de 2009 no blog do Rodrigo Gomes

Link: http://rcgomes.com.br/wp/novos-horizontes-o-underground-carioca-da-sinais-de-vida/

“De um lado o Rio de Janeiro é dominado por mega eventos de musica eletrônica, patrocinados por super empresas, conseguindo reunir de 3.000 a 20.000 pessoas em 12 horas de festa puramente comercial e recheada de atrações caríssimas, pra um público que pouco se importa com o que esta tocando, desde que esteja na moda ou figurando algum toplist por ai.

De outro temos eventos de médio porte, tentando vender atrações locais que não conseguem se desvencilhar do bairrismo, misturado com headlines internacionais, usando uma mídia muito semelhante à comercial de margarina ou sabão em pó, com pessoas pulando em meio a arco-íres e casinhas coloridas sobe um descampado verde, que sinceramente, é horrível e borrachudo, propaganda comprada pronta, tipo aqueles cd’s de cliparts que vendiam antigamente nas bancas de jornal acompanhados de uma revista de informática (flyer é arte, alguém lembra disso?). O público? Só Deus sabe, uma mistura que da até medo de tentar determinar antes de ser atacado e chamado de preconceituoso.

No fundo disso tudo, escondido em suas cavernas hitech, a tribo do “antigamente era melhor”, o povo que sobreviveu a lavagem cerebral do modismo graças aos i-pod’s, ferramenta fundamental onde o verdadeiro som ainda vibra forte e faz essa tribo ainda reviver (nem que seja em seus quartos) sensações antes compartilhadas em grupo em festões ao luar ou em baixo de um sol escaldante de Vargem Grande. Triste? Que nada, estava ai a receita pra construir o novo underground psicodélico da cena carioca.

Munidos de tecnologia e na velocidade da internet, festas e festivais secretos passaram a ser traçados e começam a pipocar pelos finais de semana. Podemos ser poucos, mas na hora de fazer barulho e juntar nossas forças a celebração atinge um pico de energia que instantaneamente os olhos voltam a brilhar, os corações esquecem os ritmos que podem ate não ser da preferência de alguns, mas vibra na mesma freqüência, com o mesmo gostinho de revival e com a mesma empolgação de descobridores diante de novos horizontes.

Uma das peças do quebra cabeça começou a se formar com o surgimento do coletivo de Djs Enlight, formado em 2007 com o objetivo de se tornar um núcleo de resistência underground dentro da musica eletrônica carioca. Cansados de festas comerciais, onde a preocupação com o público é pouca e a qualidade sonora é rara.

“O chamado vem sendo refeito há alguns meses, o público teve que ser testado, pra ver quantos ainda estão dispostos a entrar novamente no transe coletivo e acreditar na possibilidade de se criar novas ZAT’s psicodélicas (Zona Autônoma Temporária).”

Uma humilde amostra aconteceu em fevereiro, onde tivemos no Rio de Janeiro um mini festival colaborativo que serviu de base pra troca de vivencias, muita musica non stop e planos pro futuro próximo. E no ultimo dia 7 de março aconteceu a Enlight Label Party, uma festa um pouco mais aberta, com o objetivo de se recriar a atmosfera das extintas privates, que reuniu cerca de 200 pessoas em um sitio longíssimo, a 2 horas do Rio de Janeiro, ao som de Naked Turist (GER), Paula (FOP-SP), Deshi (FOP-SP) e os djs do coletivo Enlight.

Tanto o mini festival quanto a Enlight Label Party foram um sucesso. O público voltou ao espírito de coletividade, participando da construção da festa como local de celebração construído a varias mãos e pensamentos, onde não só o público interagia com respeito ao próximo, mas principalmente com a natureza, cuidando de seu próprio lixo, usando suas próprias canecas de plástico e porta bitucas de cigarro, que reduziram quase a zero a geração e permanência de lixo no dancefloor. Além disso, o intercambio com outras “cenas”, com o mesmo espírito de preservação de nossos valores ideológico, vem se fazendo presente e mais do que nunca necessário, demonstrando que a união pode, sim, restaurar nossos rumos enquanto movimento contra-cultural e despertar nova consciência e rumos. Os projetos de cunho social e solidário também estão sendo desenvolvido, com a ajuda do público não só doações, roupas, livros e alimentos, mas também dinheiro pra ser aplicado em ONGs que promovem a integração provendo educação.

Por todo canto e utilizando comunicação direcionada, surgem movimentações. Não desligue sua antena ou mude sua freqüência e junte-se a nos nessas novas e antigas celebrações.”

Por: Roosevelt Soares

Tomás Chiaverini, autor de Festa Infinita [Entrevista]

Entrevista que fiz para o portal Plurall, com o autor do livro Festa Infinita – O entorpecente mundo das raves, Tomás Chiaverini – [publicado no dia 11/09/2009]



Tomás Chiaverini é um jornalista apaixonado pelo que faz. Assim que se formou colocou a mochila nas costas, juntou uma grana que tinha economizado como colaborador de um site e foi pra Manaus, em busca de histórias pra contar. Passou cinco meses mochilando pela Amazônia, voou com a FAB em missões humanitárias até a fronteira com a Colômbia, presenciou conflitos indígenas em Roraima, entre outras doideiras. Assim conseguiu vender algumas matérias para revistas importantes.

Quando voltou dessa jornada, sem estágio, sem emprego e sem o que fazer, resolvou escrever um livro sobre a população de rua em São Paulo. Dormiu embaixo de viadutos, se disfarçou de desabrigado pra ser recolhido a um albergue municipal e entrevistou inúmeros moradores de rua e especialistas. O resultado foi o Cama de Cimento, lançado em 2007.

Em abril desse ano, Tomás Chiaverini despertou polemica dentro e fora do mundo da musica eletrônica nacional ao lançar o livro Festa Infinita – O entorpecente mundo das raves, um relato sincero, “um mergulho no barulhento, colorido e entorpecente mundo das raves”.

Sem ler o livro, muitos foram os que criticaram o autor (e me incluo aqui), acreditando que o livro fosse um relato sensacionalista e que servisse pra alimentar visões preconceituosas o que pra engano de muitos, não é uma verdade. Tomás Chiaverini durante um ano inteiro viveu intensamente o universo das festas psicodélicas, desde as mais conceituais como EarthDance, Mystic Tribe, Respect, até as mais comerciais como as edições da Xxxperience, além dos dois maiores festivais do Brasil, Universo Paralello e Trancendence.

Tomás entrevistou inúmeros DJs, produ¬tores e aficionados, criando uma trama de perfis que, por meio de casos curiosos, di¬vertidos e até dramáticos, ilustram a histó-ria das raves no Brasil e no mundo.

O resultado desse processo de imersão é um texto fluido e instigante, que mexe com os sentidos, que expõe o hedonismo descompromissado de parte da juventu¬de atual e que documenta uma faceta da história contemporânea desconhecida para a maior parte da população.

Em entrevista exclusiva pro publico do Plurall.com, convidamos o autor de Festa Infinita, Tomás Chiaverini pra falar um pouco mais sobre seu trabalho e comentar pontos polêmicos de toda repercussão que o livro vem gerando desde o seu lançamento.


Quem é Tomas Chiaverini pros amigos, família?

R.: Isso, caro Roosevelt, você vai ter que perguntar pra eles.

Qual foi o comentário entre a família e amigos quando viram o livro pronto e começando a pipocar os primeiros comentários sobre?

R.: A grande surpresa para a maioria deles foi quando escolhi o tema, porque não tinha a ver com o universo que eu freqüentava. Mas aos poucos foram se acostumando, passando a entender minhas motivações e me apoiando. E é um apoio que não é fácil, porque me transformei num chato durante a apuração. Só falava nisso, nas novas descobertas, nos próximos passos da apuração, nos detalhes do texto e etc. Então, quando o livro ficou pronto, não houve grandes comoções.
Mesmo porque eu já tenho um livro publicado, o “Cama de Cimento”. Neste primeiro trabalho, que retrata a vida dos moradores de rua em São Paulo, eu dormi embaixo de viadutos, me disfarcei de desabrigado para ser recolhido a um albergue municipal, entre ouras loucuras. Então, depois disso, nada mais assusta.

Que tipo de musica você ouve em casa e que tipo de musica você ouve, ou já ouviu, pra curtir uma balada?

R.: Ouço de tudo, com destaque pro rock clássico.

Quais são seus filmes preferidos?

R.: Nossa, uma infinidade. Então vou ficar com os últimos que assisti e me marcaram. No cinema alguns dos últimos bons foram “Gran Torino”, “O equilibrista” e “A partida”. Em DVD, “O discreto charme da burguesia”, “Doors” e “Na natureza selvagem”.

E livros e autores preferidos?

R.: Nossa, uma infinidade maior ainda. Grande sertão: veredas, O velho e o mar, Na praia, Cem anos de solidão, O amante, O som e a fúria, O evangelho segundo Jesus Cristo, A metamorfose, são alguns livros que me marcaram. Agora, no trabalho jornalístico, sou muito influenciado por uma corrente norte-americana que ficou conhecida como New Journalism. Caras como Tom Wofe, Gay Talese, Truman Capote, Joseph Mitchel e até Hunter S. Thompson me influenciaram bastante.

Vamos aproveitar pra esclarecer alguns pontos a respeito do livro Festa Infinita. É um livro que pode se enquadrar dentro de alguma posição como “a favor” ou “contra as raves”? Como você define a leitura do livro?

R.: O livro é, sobretudo, jornalístico. Ou seja, pretende retratar um universo da forma mais próxima da realidade. Claro que essa realidade é extremamente relativa e mutável, por isso é importante ressaltar que o que pretendo com o livro é trazer apenas uma leitura deste mundo que é bastante complexo. Para isso, minha posição não pode ser nem contra nem a favor. E é isso que busco, manter, sempre que possível, a imparcialidade.

No período de pesquisa, em que você freqüentou festas e festivais pelo país, como você captava o material pesquisado? Tinha um kit, ferramentas indispensáveis? Chegou a gravar algo em vídeo, entrevistas, diálogos, ou era tudo na base de anotações?

R.: Sim, sempre ando com minha bolsa à tira colo, onde levo um gravador digital, algumas canetas e um bloco de anotações. A maioria das entrevistas formais foi gravada e devo ter algo como cem horas de áudio.

Em algum momento essas pessoas que eram alvo da sua pesquisa, chegaram a te pedir pra manter certos acontecimentos, ou diálogos, em off?

R.: Sim, é algo relativamente comum no universo jornalístico. Há repórteres que não aceitam esse tipo de conduta, e que publicam tudo o que vêem ou ouvem. No meu caso, como passei muito tempo com meus personagens, tive de ser um pouco mais flexível. Seria muito desagradável para alguém como o Rica Amaral, por exemplo, ter que passar um dia todo tomando cuidado com o que faz e fala por estar na presença de um repórter. Então houve diálogos e situações que não estão no livro a pedido dos personagens. Além disso, quando descrevo situações relacionadas a pessoas que não sabiam estar diante de um repórter, não coloco seus nomes no texto.



Quem fez a foto de capa?

R.: O Murilo Ganesh, que fez também algumas fotos do miolo.

Li um comentário do Swarup, que ele dizia não ter autorizado a publicação da foto de capa do livro que é uma foto do festival Universo Paralello. Em algum momento você pediu autorização pra isso? Alias, você julga ser necessário ter essa autorização?

R.: Não conheço esse comentário, e ficaria agradecido se você pudesse me encaminhar.

Eu tinha autorização para cobrir jornalisticamente o Universo Paralello. Fui convidado a participar pelo Alok, irmão de Swarup e principal responsável pela montagem da festa. Acompanhei o trabalho dele durante a montagem do festival e o entrevistei diversas vezes. O Swarup também me concedeu entrevistas, sabia que eu estava lá escrevendo um livro, e não se opôs a isso.
Quanto à imagem, como disse, foi feita pelo Murilo, que também estava autorizado a tirar fotos para divulgar o festival. Não vejo porque eu tivesse de pedir autorização para usar a imagem, que afinal pertence ao fotógrafo.

Como foi feito a triagem dessa material após a captação? Imagino que deve ter rendido muito material. Teve coisas que você achou melhor não incluir? Quanto tempo demorou esse período?

R.: O material que está no livro é apenas uma ínfima parte do que recolhi durante a apuração. Li dezenas de livros, fui a várias festas e entrevistei quase uma centena de pessoas. Não caberia tudo isso nem em uma série de dez livros e ficaria muito chato. Faz parte do meu trabalho, portanto, separar o joio do trigo, escolher as partes mais interessantes, relevantes e divertidas. No meu caso, vou escrevendo durante a apuração e tudo acontece meio que paralelamente. Então não posso te dizer quanto tempo durou essa etapa em particular. Mas o processo todo de confecção do livro foi de janeiro de 2008 a março de 2009.

Quem criou o titulo Festa Infinita – O entorpecente mundo das Raves? E por quê?

R.: Eu escolhi o título do livro. O “Festa Infinita” é uma alusão à longa duração das festas e também a alguns ravers (também não gosto do termo “raver”, mas não há outro melhor) que vivem indo de um evento a outro quase numa festa infinita. O “entorpecente”, diz respeito às drogas, claro, mas, quando escolhi essa palavra, quis me referir também a outros tipos de entorpecimento: pela música, pela luz, pelo afastamento da cidade, pelas horas ininterruptas de dança. No fim, fui mal compreendido e o publico em geral entendeu que a palavra é pejorativa, e diz respeito apenas às drogas. Talvez haja mesmo alguma razão nessas críticas, e se soubesse de todo o problema que isso causaria, teria escolhido outro subtítulo. Mas, como diria o grande Saramago: “Isto posto, posto está”.

Livro pronto.Quem foi às primeiras pessoas que você apresentou o livro e qual foi a reação? Você ouviu alguma coisa que já desse sinal de que o livro despertaria polemica?

R.: A primeira pessoa ler o livro foi minha namorada e revisora particular. Na verdade ela foi lendo trechos durante a apuração e deu sugestões preciosas desde quando a idéia ainda estava verde. Então o que posso dizer? Ela foi a primeira pessoa a ler, e gostou. Opinião suspeita, mas fazer o quê?

Você considera esse livro polêmico?

R.: Considero. Principalmente porque trato de um mundo que é amado intensamente por muitos, e me proponho a trazer não apenas facetas positivas, então esperava um pouco de polêmica. Além disso, há a questão das drogas. Por um lado, acho que tenho uma abordagem nada hipócrita e bastante aberta. Me arrisquei a tomar um ecstasy e a narrar seus efeitos no meu organismo. Coloquei meu nome ali, minha cara e carreira à tapa. Então esperava que os reacionários vissem o livro como uma apologia às drogas e que os entusiastas das substâncias ilícitas me achassem um careta. No fim, foi mais ou menos isso que aconteceu. Há muito preconceito neste mundão afora.

Cinco meses apos o lançamento do Festa Infinita. Já da pra fazer um balanço a respeito das vendas do livro? Alguma coisa de surpreendente?

R.: As vendas vão bem para um livro de um autor desconhecido, num país em que as pessoas não lêem. Mas estão muito aquém das minhas expectativas. Não esperava que fosse se tornar um best-seller, mas há uma verdadeira multidão de aficionados por festas, gente que tem as raves como o mais importante da vida, e essas pessoas sabem que há um primeiro livro sobre o assunto sendo lançado no país delas, e não se preocupam em ler. Isso é muito triste independentemente de acharem que é bom ou ruim, não importa. Eu, se souber que há alguém falando sobre algo pelo que sou apaixonado, certamente irei lá conferir. Essa apatia das pessoas, essa falta de interesse em sair do Twitter, do Orkut, e do mundo virtual para ler um livro, me surpreendeu bastante. Era de se esperar, mas me surpreendeu.

Pesquisei praticamente tudo que foi escrito sobre você e o livro na internet e fora dela. Vi muitos comentários ótimos, apoiando seu trabalho, mas também um considerável numero de comentários agressivos e de certa forma meio que “mecânicos” por parte dos apreciadores da musica eletrônica, das festas e festivais psicodélicos. Qual a impressão essa galera gerou em você? Essa impressão mudou da que você tinha ali no meio dessa galera, colhendo o material? O que mudou?

R.: Então, aqui podemos fazer um desdobramento da resposta anterior. A maior parte das críticas agressivas foi feita por pessoas que não leram o livro. Que saíram por aí falando baseando-se no que viram no blog de outro sujeito que não leu, na resenha mal feita de uma livraria e etc.

Quanto à mudança de impressões, percebi que muitas pessoas que se mostravam extremamente liberais quanto à vida e quanto ao uso de drogas, se mostraram extremamente caretas e conservadoras quando viram o assunto exposto nas páginas do Festa Infinita. Teve gente que, em entrevistas concedidas a mim, criticou a imprensa por falar das festas sem ir lá conferir. Depois, essas mesmas pessoas, falaram mal do livro sem conferir.

“Nesse momento, tenho certeza absoluta de que não há música eletrônica sem ecstasy, de que aqueles sons são uma espécie de interface com a droga, criados para estimularem os efeitos da MDMA.”

No capitulo em que você experimenta um ecstasy, você descreve como seus sentidos mudaram diante do som e daquela atmosfera. Tanto o ecstasy quanto outras drogas, ao ser absorvida pelo organismo alteram a percepção de um modo geral. Se você estivesse diante de um show de MPB, ou num sambinha, funk, axé, essa percepção também não te causaria essa alteração, ao ponto de acreditar que existe uma “interface” entre a musica e você, você e o ambiente?

R.: Creio que sim. Por isso, perceba que, no trecho que você destacou, eu começo com “Nesse momento”. Ou seja, estou deixando claro que é uma impressão do momento, sob o efeito da droga, e que não necessariamente corresponde à realidade. Em outros trechos do capítulo e do livro, eu volto a falar desta impressão, deixando claro que é algo relativo.

Essa capitulo em especial é bem polêmico justamente por você associar diretamente o ecstasy com a musica eletrônica, como se um não funcionasse sem o outro, até o ponto em que você faz outra associação delicada; “Nenhum dos ravers neo-hippies que se dizem preocupados com os rumos da sociedade moderna parece lembrar a proveniência dessas substâncias [drogas ilícitas]. No clima de festa e alegria há espaço para manifestações contra as religiões tradicionais e o consumo de carne, mas nada se fala sobre tráfico de drogas.”Você acredita que o problema do trafico de drogas pode ser combatido com informação, panfletos e coisas do tipo? Ou estou fazendo uma interpretação errada?

R.: Na verdade, esse trecho está em outro capítulo, do Universo Paralello. Então vamos por partes. Primeiro, eu acho que a música eletrônica é influenciada e potencializada pelas drogas, em especial o ecstasy e o LSD. Assim como o rock, por exemplo, foi influenciado por alucinógenos diversos. Ao mesmo tempo, conheço muita gente que toma ecstasy para ouvir jazz e muita gente que ouve música eletrônica sem tomar nada. Mas há uma relação aí e seria hipocrisia dizer que não.

Agora, quanto a essa passagem que você destacou, eu achei necessário fazer essa ponderação no texto, pois minha intenção é mostrar as diversas facetas do fenômeno, incluindo o uso das drogas. Há prazer, há diversão, há expansão das mentes, mas há efeitos colaterais, há vício e, o pior na minha opinião, há trafico de drogas.

Dito isto, evidente que não acho que o tráfico de drogas pode ser resolvido com panfletagem, assim como o aquecimento global também não pode. Ao meu ver, a única maneira de acabar com o tráfico e com todo o terror que ele gera, é legalizando as drogas. Sou a favor de drogas legalmente produzidas, com controle de qualidade e cobrança de impostos. Assim o governo pode pegar esse dinheiro e tratar de dar um destino pro moleque que, sem opção, acaba entregando a vida pra alguma quadrilha mundo afora.

Ao mesmo tempo em que muitas festas e festivais de musica eletrônica, optam por um convívio pacífico com as drogas, e não devemos confundir com permissivo, pois são respaldados por projetos com apoio do governo e estudos científicos como os modelos de redução de danos, somado ao procedimento normal de prevenção, de revista na entrada, educação e informação como sendo o melhor meio pra repassar atitudes mais humanas, sem moralismo a respeito do tema, outra grande maioria segue a formula de repressão+zero de informação, onde no maximo existe um slogan ingênuo do tipo; “não use drogas” . Percebo que isso ajuda muito a fortalecer uma alienação, em que pessoas não aceitam falar em drogas, muito menos que elas existam dentro da musica eletrônica, assim como existe em tudo no mundo. Acredito que toda essa polemica em cima do subtítulo “Entorpecente mundo das raves”, tem muito desse hibridismo de personalidade. Do pode até ser usado, mas não pode ser falado, na TV, NUNCA, em livros, NEM PENSAR. Você acredita que o termo sensacionalista, que foi muito usado contra o jornalista Tomás Chiaverini e o livro Festa Infinita é fruto disso? Você ficou surpreso com esse termo direcionado ao seu trabalho?

R.: Acho que sim, há uma grande hipocrisia da sociedade quando se trata das drogas. A própria lei do usuário, (que pune com penas brandas que é pego com pequenas quantidades) é um absurdo. Quer dizer, eu posso usar, mas não posso produzir nem vender. Ou seja, quem ganha com isso é o tráfico, são os policiais e políticos corruptos. Está se fortalecendo o tráfico, se agravando o problema. Ou proíbe-se de uma vez, o que já se mostrou ineficiente, ou legaliza-se.

E, sim, as pessoas que estão à frente deste movimento que se pretende revolucionário foram contaminadas pela hipocrisia. Muita gente me falou que seu eu fosse em festas sem tomar nada, não compreenderia aquilo completamente. Gente esclarecida, na vanguarda do mundo raver nacional. E depois, quando viram isso retratado no livro, ficaram com os cabelos da nuca arrepiados.

Ao preparar essas perguntas, abrimos o portal Plurall pra receber algumas perguntas dos user do site e uma delas foi feita pelo Dj Flict, que segue na integra abaixo;

“Ao ler seu livro não pude deixar de pensar que você encarou tudo o que passou com um grande distanciamento e impessoalidade. Alguns podem argumentar que isto sería o “trunfo” do tipo de jornalismo que você pratica. Enfim, me pergunto se tudo o que você viu e participou mexeu com você de alguma forma mais profunda. Me pergunto se você questionou os motivos destas pessoas, ou o que elas querem dizer com suas ações. Isso aconteceu? Se sim, você também não questionou a sua própria vida/realidade? Seu local no mundo? O porque de seguir (ou não) a sociedade moderna?
Ou você se contentou a assistir tudo como um frequentador de zoologico (como parece pelo livro)?”

R.: Primeiro eu tenho de discordar de que no livro eu retrato tudo como um frequentador de zoológico. Não sei se o Flict leu o texto inteiro (e me arrisco a dizer que não), mas acho que ali deixo bem claro até que ponto foi meu envolvimento. E quanto a essas perguntas que vão na direção de “o que mudou na sua vida”, não vejo muito sentido nelas. Não que eu não tenha sido modificado pelas minhas vivências neste universo, mas exatamente pelo contrário. Estou sempre em mutação. Estou sempre questionando minha própria “vida/realidade”. Quando alguém diz que passou a ver o mundo de uma outra forma depois de certa experiência, está, de certa forma, dizendo que se cristalizou. É uma visão semi-religiosa, incompatível com o jornalismo.

Com certeza nos festivais você pode conhecer pessoas que estavam ali por vários motivos. Você acredita que existe um movimento ativo de pessoas que buscam essas celebrações indo muito além do simples “entretenimento”? Acredita que pode haver uma transformação e uma mensagem positiva nisso tudo? O que você destacaria de positivo?

R.: O que vejo de mais positivo é a festa em si, a diversão pacífica, a celebração da vida. Para mim, isso já é suficiente. Dez mil pessoas convivendo por uma semana em harmonia quase total, é algo muito raro e muito louvável. Quanto ao alcance deste movimento, acho que há, sim, muita gente que busca algo além do entretenimento, alguma forma de ver o mundo de outra forma. Mas essa busca (e aqui acho que é um reflexo da condição de dispersão e alienação da nossa geração) não encontra muitos paralelos na realidade. Não vejo ações concretas saindo deste movimento. Não vejo passeatas, manifestações, mutirões ou outras tentativas reais de causar uma mudança positiva na sociedade.

E de negativo?

R.: Em alguns casos, há a banalização da droga, a homogeneização de uma cultura que se pretendia diferente, e a criação de um mundo de fantasia que não corresponde à realidade.

Agora falando um pouco dos bastidores do autor. Já surgiu algum convite pra entrevista na TV aberta? Algum comentário a respeito do livro vindo de alguém que você admira como escritor, jornalista, resenha…? Esta dispertando atenção dos meios que não são diretamente ligadas a musica eletronica?

R.: Teve um bocado de coisa bacana dita sobre o livro. Pra quem quiser conferir, eu juntei tudo no meu blog o Antes da Estante, no link “…da repercussão de Festa Infinita”. Houve até alguma repercussão em grandes meios de comunicação. Dei entrevistas para a MTV, para a rádio Band News e a Transamérica. E para minha felicidade, a grande maioria das resenhas e críticas foi positiva, então não destaco nenhuma em particular.

Vi em seu blog que você esta escrevendo um novo livro, agora seguindo o gênero ficção. Conta um pouco desse novo livro e de como surgiu a idéia pra ele?

R.: É uma ficção, um romance. A idéia surgiu a partir de uma viagem de cinco meses que fiz pela Amazônia, logo depois de me formar em jornalismo, há uns cinco anos. Por enquanto eu prefiro guardar os detalhes em segredo, mas, se tudo der certo, logo mais ele estará á disposição nas livrarias.

Eu sinceramente precisei de todo esse tempo, desde toda a corrente de comentários que se espalhou desde o lançamento do seu livro, pra conseguir entender que o livro Festa Infinita é sim um documento histórico-social e que representa uma perspectiva autentica sobe um antigo foco, e que ainda é meio nebuloso pra muitos, seja Inside ou não, o livro joga luz sobe vários aspectos quase impronunciáveis até então. Logicamente eu preferia um livro com mais romance na narrativa, escrito por alguém apaixonado pela cultura alternativa, musica eletrônica e tudo mais. Hoje, olhando pra todo esse processo desde a idéia de escrever o livro, até essa entrevista aqui no Plurall. O livro Festa Infinita esta cumprindo sua missão, ou melhor, esta nos rumos esperados?

R.: Não sei exatamente qual é a missão do livro. Mas acho que, à medida que ele documenta um fenômeno relevante que está ocorrendo na nossa sociedade, de alguma forma está cumprindo uma função importante.

Bom, agradeço por nos conceder essa entrevista e deixo esse espaço pra você enviar uma mensagem pra todo mundo que esta aqui nos acessando, no Plurall, sejam leitores ou não do autor Tomás Chiaverini.

R.: Foram muitas respostas complexas, então vou dar um recado bem simples. Próximo dia 24, à convite da Fnac, irei participar de uma mesa redonda sobre o livro. O evento será em Curitiba e fará parte do 4º Encontro de Música Eletrônica. Depois do bate papo, haverá uma mini-seção de autógrafos, boa oportunidade pros curitibanos que ainda não adquiriram seu exemplar.