Sociedade dos Anônimos

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SOCIEDADE DOS ANÔNIMOS

Estava eu deitado no escuro do meu quarto, somente com as portas duplas que dão para o quintal traseiro da minha casa, abertas. No pátio, só uma lâmpada fria acesa, que da onde eu estava, era atravessada por um varal cheio de roupas que ao balançar dos ventos, produzia um efeito em minha face, ora com um gordo facho de luz invadindo o meu rosto e ora jogando me na completa escuridão. Mas nada disso eu percebi na hora. Na hora, eu estava no smartphone caçando uma foda rápida para aquela noite. Sabe, um desses aplicativos que todo mundo usa mas finge que não. Então, foi assim que conheci Jafar, um nome secreto que só servia para esconder seu nome de batismo e colar no personagem iraniano que ele forjava. Com ele e qualquer outro anônimo, a foda, tem regras bem claras. O combinado é; quem tem local, gíria para “lugar para foder a vontade”, diz o seu endereço e a hora marcada. Eis que um deixa a porta aberta e veste uma máscara que tapa totalmente o rosto. O outro, chega com a mesma máscara, vestindo um casaco de capuz preto sobre a cabeça e entra. Os dois se beijam pelo único buraco da máscara e fodem por duas ou três horas de pirocadas, malabarismo e gozo. Sem precisarem nem saber quem são. Falam pouco de si. Só putarias que vem do âmago dos anônimos são ouvidas. E quando acaba, o que veio vai embora só tendo um endereço que ele nunca vai sentir vontade de voltar pelo simples motivo de que nas próximas 24 horas ele terá feito isso no mínimo 4 vezes, em locais diferentes e assim seguira. Não há culpa. Sentimento. Não é porque o sexo foi ruim. Mas também por um comum acordo entre esses cavaleiros anônimos que literalmente se cruzam por aí com total liberdade. Chegamos a era da foda anônima. E de repente, o vento parou no quintal de minha casa. E só então percebi que as roupas do varal pararam de balançar e meu quarto ficou a meia luz. No reflexo, tinha uma cueca pendurada separando a luz e a escuridão do meu rosto. Pensei nisso só por um segundo, enquanto sentia o vazio daquele homem estranho dentro de mim, latejando, vivo. Eu suava. Tirei a máscara e fui tomar um banho. Tive forças ainda para bater uma bela punheta por ter vivenciado essa nova experiência, ter entrado para a rede de anônimos, e em termos de fodas entre homens e fui fumar um baseado. Já pensando no próximo que viria a encontrar; dessa vez usarei algemas…

Por Roosevelt Soares.

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Sobre ele

Ele me abraçou e silenciou minha boca com um beijo longo e molhado. Sem ar, abri os olhos tentando enxergar, se afastando lentamente, mas sendo segurado pelo rosto com suas mãos grossas analisando toda minha fisionomia ao mesmo tempo em que deslizava os dedos ao afastar meu cabelo o bagunçando. Lugares mudos entre a barba cerrada e o franzir da testa, viril e decomposto com um sorriso indecente de menino guloso. Há dentro de mim um novo desejo de destruir, uma ligação à natureza selvagem e a página descoberta, em aberto, pronta para ser escrita junto a boca procurando conter as coisas que acontecem nas cabeças em chamas. A pele e o que se mistura. O dentro indecifrável. As bocas de mãos dadas. Mutua posse. À pouca gravidade e o recíproco calor de corpos se roçando como feras.

Por Roosevelt Soares

A mulher misteriosa

Uma mulher de salto alto agulha, com uns 15 centímetros, fumando como se fosse a coisa mais charmosa do mundo, vestindo um casaco que imitava pele, adentrou o bar que eu estava. De cabelos afro, ela retirou o casaco e os sacudiu como se fosse um comercial de shampoo, em câmera lenta. Ela caminhou como se desfilasse e foi até a juicebox colocando um som do anos 80, bem agitado, para dançar. Eu estava no canto da juicebox, quase escondido, mas hipnotizado por ela, atrai seu olhar e ela e me chamou. Eu já tinha tomado algumas doses alcoílicas e fui até ela com bastante vergonha apesar do álcool me dizer para me entregar aquele momento. Eu, apaixonado pelos anos 80, dançamos como se o tempo tivesse retrocedido.Foi um instante de levitação! Eu levantei um cigarro do bolso e ela o acendeu com a boca encostando na minha, de ladinho para que a chama escorresse de um cigarro para o outro. Eu não tentei descobrir quem era aquela mulher misteriosa, apenas me entreguei a ela e embarquei em sua energia. Um pouco antes do fim da música ela segurou minhas mãos e me levou até o bar, pedindo dois dry martinis. O seu batom vermelho manchou a beirinha do copo e logo depois manchou suavemente a minha boca quando ela veio em minha direção mirando o meu olhar, sem qualquer permissão para fazer aquilo. Era uma mulher perfeita, decidida, mas eu sabia que também era um travesti que por sorte, caiu nos meus braços, porque eu me sentia o único a acolher aquela mulher especial e a levar ao paraíso. Não papeamos, foi só olhar, dança, sinuca e muitos beijos. Antes de sair, não peguei o seu telefone, apenas um táxi que ela mesma parou. E que surpresa, o táxi tinha me levado exatamente para o seu quarto em Copacabana. O resto da noite não preciso contar, mas posso garantir que foi única.

Por Roosevelt Soares

O voo

Dificilmente explicável aquela presença selvagem onde tudo se parece com um miado, inevitavelmente ardente como as chamas do sol. Disse para mim mesmo: acho que vai chover. Ouvi tempestade. Mas fazia sol. – deve ser chuva de verão – me confortei. Mas ele ainda estava ali. Aquela lembrança de ter tocado tão profundo um anjo ferido, não foi um sonho. De ter cuidado para que suas asas voltassem a crescer. – Definitivamente vai chover, olha só aquelas nuvens negras do outro lado do mirante – resmunguei internamente. Mas ele ainda estava ali. E o calor queimava. Não por causa do sol – percebi repentinamente embaixo de uma confortável sombra enquanto suas asas se abriam magnificamente. Ele olhou para mim sorrindo, descabelado, com pentelhos encaracolados ao redor do pênis. Ser, o animal canibal, com presas afiadas grudadas em meu coração sangrento, doeu e teve prazer, até que um pingo de chuva caiu no meio da palma da minha mão e naquela pequena bolha que refletia tudo, ele voo como um pássaro, criando ventania e poeira com o bater de suas asas e finalmente. Só ai, uma chuva torrencial caiu. Mas ainda havia sol e arco-iris sendo refletido na bolha. Quando eu me dei conta, já era tarde, a bolha estourou e escorreu por entre meus dedos, me deixando sozinho no meio das nuvens negras, raios e trovões. Foi quando percebi que jamais o veria novamente, mesmo tendo curado suas asas, suas aflições, saciado seus desejos carnais. Um pecado. Um segredo. E o último voo em direção a liberdade – e do abandono.

Por Roosevelt Soares

Fôlego

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Da braguilha aberta ao volumoso coldre arregaçado por ganchos envergados que saltavam para fora, seus pentelhos revelavam segredos de homens feitos em arma dura penetrando carne por funduras lambuzadas de gulas num intenso empurra tudo sem distinguir permissões ou entregas perdidas entre vírgulas ofegantes que agarram os gestos a mover-se de forma predatória através de orifícios latejantes a guerrear com lanças de glandes prestes a explodir no meio das nádegas acolchoadas com penugens douradas ao sol. Daquele cavalgar orgástico libertaram-se homens gerados na fantasia de suas intimidades, muito além da monotonia dos espaços delimitados, numa mutua posse do tesão que se come no calor da vontade.

por Roosevelt Soares.

É URGENTE FUDER

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Guerra. Violência. Miséria. Comentam sem nenhum pudor e até se esfregam na imagem de uma criança refugiada morta na areia da praia. A economia, você viu? Ah, aquela vaca vai ter que pagar. E o dedo decepado que o Fábio Júnior encontrou; enfiado em vosso cú – ui-ui-ui. Queremos sangue. Que aquele vermelho pegajoso escorra ao lado das cabeças decepadas e sirva para lavar a alma da nação. Ai como é bom.

Eu acho é repugnante. Não entendo essas pessoas que se sentam diante da tv na hora de suas sagradas refeições e se alimentam de tragédia. Mas eu é que sou doido. Não posso falar de pica, piroca, buceta, cu. Ai como adoro comer um cu. Isso sim é assustador. Experimenta só. Interrompa a tv, os jornais, os feeds de notícias e no meio daquele papo desgraça orgástico, diga bem alto que ADORA CHUPAR UMA BUCETA MOLHADA. SENTAR NUMA ROLA GROSSA. Vai ser broxante, obsceno, vão te olhar com nojo. É impróprio.

A castração, escravidão, desrespeito a desumanização consumida e praticada diariamente aos olhos de toda a sociedade é que é pornográfico, indecente, nauseante. Isso ninguém vê. Nem se tocam que foi exatamente um enorme caralho bem duro que começou escrevendo isso tudo junto a um diluvio de sêmen nas páginas vaginais atravessadas desde o colo do útero à vulva procriadora de todas as gerações. É muita porra pra pouco saco. Eu não aturo tanta hipocrisia. Me sinto arrombado, estuprado, sujo.

Meu bem, sexo é política! Sexo está por trás de tudo – e pela frente, de ladinho, de ponta cabeça. É interessante observar as reações conservadoras que estão se alastrando pelo país. Por isso venho emitir um alerta global. Vamos fuder mais, muito mais. Vazios, cios, orifícios, inícios, meios, fins. Foram milênios e milênios entre o bem e o mal ejaculado em qualquer brecha que alimente a bestialidade de cabecinhas não transantes. Então foda, antes que te fodam!

Por Roosevelt Soares.

Dentro de seus corpos

Pelas belas coxas grossas daqueles homens se arrancavam gemidos entre chupadas e toques profundos de mãos que já não obedeciam eira nem beira.

Vamos. Abra as pernas.

Deixe que a luz ondulada entre as persianas da janela traga da penumbra o ávido desejo de suor, de súplica orgástica junto a língua que te escorre pelas nádegas volumosas. Nesse torpor de esquecer tudo, rodopiava no cérebro apenas um tesão infiltrado por umidades e aberturas de seus corpos em chamas

&

Queiram o céu e as estrelas
num gozo travestido de sorriso inocente, toda indecência e pecado batizavam para sempre aqueles dois muleques que nunca haviam se encontrado assim, tão fundo dentro de seus corpos babados de porra e saliva.

Viciados, jamais esqueceriam os sabores de um homem quando se entrega a outro.

Por Roosevelt Soares.