A mulher misteriosa

Uma mulher de salto alto agulha, com uns 15 centímetros, fumando como se fosse a coisa mais charmosa do mundo, vestindo um casaco que imitava pele, adentrou o bar que eu estava. De cabelos afro, ela retirou o casaco e os sacudiu como se fosse um comercial de shampoo, em câmera lenta. Ela caminhou como se desfilasse e foi até a juicebox colocando um som do anos 80, bem agitado, para dançar. Eu estava no canto da juicebox, quase escondido, mas hipnotizado por ela, atrai seu olhar e ela e me chamou. Eu já tinha tomado algumas doses alcoílicas e fui até ela com bastante vergonha apesar do álcool me dizer para me entregar aquele momento. Eu, apaixonado pelos anos 80, dançamos como se o tempo tivesse retrocedido.Foi um instante de levitação! Eu levantei um cigarro do bolso e ela o acendeu com a boca encostando na minha, de ladinho para que a chama escorresse de um cigarro para o outro. Eu não tentei descobrir quem era aquela mulher misteriosa, apenas me entreguei a ela e embarquei em sua energia. Um pouco antes do fim da música ela segurou minhas mãos e me levou até o bar, pedindo dois dry martinis. O seu batom vermelho manchou a beirinha do copo e logo depois manchou suavemente a minha boca quando ela veio em minha direção mirando o meu olhar, sem qualquer permissão para fazer aquilo. Era uma mulher perfeita, decidida, mas eu sabia que também era um travesti que por sorte, caiu nos meus braços, porque eu me sentia o único a acolher aquela mulher especial e a levar ao paraíso. Não papeamos, foi só olhar, dança, sinuca e muitos beijos. Antes de sair, não peguei o seu telefone, apenas um táxi que ela mesma parou. E que surpresa, o táxi tinha me levado exatamente para o seu quarto em Copacabana. O resto da noite não preciso contar, mas posso garantir que foi única.

Por Roosevelt Soares

O voo

Dificilmente explicável aquela presença selvagem onde tudo se parece com um miado, inevitavelmente ardente como as chamas do sol. Disse para mim mesmo: acho que vai chover. Ouvi tempestade. Mas fazia sol. – deve ser chuva de verão – me confortei. Mas ele ainda estava ali. Aquela lembrança de ter tocado tão profundo um anjo ferido, não foi um sonho. De ter cuidado para que suas asas voltassem a crescer. – Definitivamente vai chover, olha só aquelas nuvens negras do outro lado do mirante – resmunguei internamente. Mas ele ainda estava ali. E o calor queimava. Não por causa do sol – percebi repentinamente embaixo de uma confortável sombra enquanto suas asas se abriam magnificamente. Ele olhou para mim sorrindo, descabelado, com pentelhos encaracolados ao redor do pênis. Ser, o animal canibal, com presas afiadas grudadas em meu coração sangrento, doeu e teve prazer, até que um pingo de chuva caiu no meio da palma da minha mão e naquela pequena bolha que refletia tudo, ele voo como um pássaro, criando ventania e poeira com o bater de suas asas e finalmente. Só ai, uma chuva torrencial caiu. Mas ainda havia sol e arco-iris sendo refletido na bolha. Quando eu me dei conta, já era tarde, a bolha estourou e escorreu por entre meus dedos, me deixando sozinho no meio das nuvens negras, raios e trovões. Foi quando percebi que jamais o veria novamente, mesmo tendo curado suas asas, suas aflições, saciado seus desejos carnais. Um pecado. Um segredo. E o último voo em direção a liberdade – e do abandono.

Por Roosevelt Soares

Fôlego

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Da braguilha aberta ao volumoso coldre arregaçado por ganchos envergados que saltavam para fora, seus pentelhos revelavam segredos de homens feitos em arma dura penetrando carne por funduras lambuzadas de gulas num intenso empurra tudo sem distinguir permissões ou entregas perdidas entre vírgulas ofegantes que agarram os gestos a mover-se de forma predatória através de orifícios latejantes a guerrear com lanças de glandes prestes a explodir no meio das nádegas acolchoadas com penugens douradas ao sol. Daquele cavalgar orgástico libertaram-se homens gerados na fantasia de suas intimidades, muito além da monotonia dos espaços delimitados, numa mutua posse do tesão que se come no calor da vontade.

por Roosevelt Soares.

É URGENTE FUDER

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Guerra. Violência. Miséria. Comentam sem nenhum pudor e até se esfregam na imagem de uma criança refugiada morta na areia da praia. A economia, você viu? Ah, aquela vaca vai ter que pagar. E o dedo decepado que o Fábio Júnior encontrou; enfiado em vosso cú – ui-ui-ui. Queremos sangue. Que aquele vermelho pegajoso escorra ao lado das cabeças decepadas e sirva para lavar a alma da nação. Ai como é bom.

Eu acho é repugnante. Não entendo essas pessoas que se sentam diante da tv na hora de suas sagradas refeições e se alimentam de tragédia. Mas eu é que sou doido. Não posso falar de pica, piroca, buceta, cu. Ai como adoro comer um cu. Isso sim é assustador. Experimenta só. Interrompa a tv, os jornais, os feeds de notícias e no meio daquele papo desgraça orgástico, diga bem alto que ADORA CHUPAR UMA BUCETA MOLHADA. SENTAR NUMA ROLA GROSSA. Vai ser broxante, obsceno, vão te olhar com nojo. É impróprio.

A castração, escravidão, desrespeito a desumanização consumida e praticada diariamente aos olhos de toda a sociedade é que é pornográfico, indecente, nauseante. Isso ninguém vê. Nem se tocam que foi exatamente um enorme caralho bem duro que começou escrevendo isso tudo junto a um diluvio de sêmen nas páginas vaginais atravessadas desde o colo do útero à vulva procriadora de todas as gerações. É muita porra pra pouco saco. Eu não aturo tanta hipocrisia. Me sinto arrombado, estuprado, sujo.

Meu bem, sexo é política! Sexo está por trás de tudo – e pela frente, de ladinho, de ponta cabeça. É interessante observar as reações conservadoras que estão se alastrando pelo país. Por isso venho emitir um alerta global. Vamos fuder mais, muito mais. Vazios, cios, orifícios, inícios, meios, fins. Foram milênios e milênios entre o bem e o mal ejaculado em qualquer brecha que alimente a bestialidade de cabecinhas não transantes. Então foda, antes que te fodam!

Por Roosevelt Soares.

Dentro de seus corpos

Pelas belas coxas grossas daqueles homens se arrancavam gemidos entre chupadas e toques profundos de mãos que já não obedeciam eira nem beira.

Vamos. Abra as pernas.

Deixe que a luz ondulada entre as persianas da janela traga da penumbra o ávido desejo de suor, de súplica orgástica junto a língua que te escorre pelas nádegas volumosas. Nesse torpor de esquecer tudo, rodopiava no cérebro apenas um tesão infiltrado por umidades e aberturas de seus corpos em chamas

&

Queiram o céu e as estrelas
num gozo travestido de sorriso inocente, toda indecência e pecado batizavam para sempre aqueles dois muleques que nunca haviam se encontrado assim, tão fundo dentro de seus corpos babados de porra e saliva.

Viciados, jamais esqueceriam os sabores de um homem quando se entrega a outro.

Por Roosevelt Soares.

ANDRÓGENO ESCARLATE

Foto: Summer Diary Project Tumblr
Foto: Summer Diary Project Tumblr

Há alguém parado no topo daquele prédio. Um vulto encaixado na frente da lua cheia nascente, envolto em uma luz prateada e levemente escarlate, a mesma luz solitária que chegava até a minha janela totalmente escura e fria, do outro lado da rua, quase na mesma altura. Deveria ter trinta, não mais que quarenta – contei rapidamente os andares sem prestar atenção enquanto o vulto se curvou olhando para baixo, ensaiando um salto para a morte. Talvez soubesse voar. Talvez quisesse aprender. Eu queria sentir.

Descalço e tonto de vinho, tiro a camisa em meio ao calor infernal daquela madrugada carioca e sem me tocar do que estava fazendo, começo a avançar por cima da janela até me colocar para fora e me sentar com os pés caindo em direção a rua, um tanto patético ao perceber que visto apenas uma cueca voluptuosamente macia e incrivelmente excitado. De onde estou, começo a sentir uma brisa que me arrepia todos os pelos indiferentes à imaginação e subitamente sou percebido pela figura do outro lado, que me olha para o alto, de braços abertos.

Perco-me com o oxigênio em debito e sinto que por um instante ambos esquecemos o que estávamos prestes a fazer, como um dramaturgo que adormeceu em meio ao oficio e impediu seu próprio final, sabendo que a firmeza de um olhar confidente ao se cruzar dessa forma, pode dissolver todos os dias amargos, como se fosse capaz de reagir a sinapse maldita que emperra e nos leva a abismos escuros como o de agora.

Do alto daquele prédio. Dois vultos se encaixariam perfeitamente na frente da lua cheia, iluminados cinematograficamente, como se tivessem de encontro marcado. Desejei que algum piano chorasse algo extraordinariamente doce e pensei ter escutado qualquer coisa como uivos salientes e uma violenta caligrafia tortamente erotizada, foi penetrando todos os orifícios daquela escrita incompleta que se descortinava dentro dos meus olhos.

Morreu na noite de ontem, nesta cidade da América do Sul, um tanto cansado das convenções, dos sonhos em decomposição; dois estranhos amantes que se masturbavam no topo de suas insanidades. Seria suicídio, diriam os jornais em tom de informação banal, sem nenhum alarde, sem nenhuma importância. Na foto ilustrativa, dois corpos intactos e sorridentes apareceriam lado a lado, de mãos dadas, como se tivessem voado tranquilamente até ali. Rodeados de sangue vermelho vivo.

Num salto. Estremeci inteiro.

Com o coração acelerado. Boca seca. Me encontro todo soado, sentado a beira da cama. Sem roupa. Duro. Com as mãos se movendo rapidamente até os olhos para bloquear o sol cegante que invadia meu quarto por entre as grossas cortinas e me atingia bem dentro dos olhos. Quase explodindo. Quase implodindo. Teria morrido sem perceber? Coito interrompido! Não me importa mais nada. A fúria do sol espantou qualquer companhia daquela estranha noite debruçado sobre páginas em branco e agora, só um café forte conseguiria me entender.

Por Roosevelt Soares

Leonardo

Decidi que também daria para o Leonardo quando vi as gotas de sangue em vermelho vivo caírem uma a uma sobre sua camisa branca de botões entreabertos, deixando à mostra o início de seu tórax de pele branca com pelos claros, muito delicados e brilhantes. Era tarde demais, álcool demais para manter qualquer tentativa de dissimular o desejo crescente de tocá-lo novamente desde a última noite que nos encontramos.

Ele desviou o olhar. Mas o copo de whisky escapou de sua mão e quando comecei a recolher os cacos estilhaçados no chão em torno dos seus pés, ajoelhado, sem nenhuma fala, pude olhar com calma da braguilha do seu jeans azul desbotado até parar nas gotas de sangue tingindo a camisa branca que ele tentava limpar em vão. Lembrei que ele tinha voltado pra sua namorada, de nossas brincadeiras na infância, das mulheres que já colocamos de quatro no mesmo quarto de motel, em noites vazias. Disse a ele que tirasse a camisa, sem controle sobre minha fala, apenas mandei que tirasse e usasse para apertar o corte na palma de sua mão – meu álibi. Ele começou a desabotoar a camisa de baixo pra cima e junto aos acordes de um solo de sax entre a pausa de uma bateria nervosa que vinha do som da sala ou de qualquer lugar da minha imaginação, assisti muito próximo, próximo demais de todos aqueles pelos encaracolados muito denso em torno do seu umbigo surgirem novamente, dessa vez formando um caminho que se perdia dentro daquela calça que eu queria arrancar.

Apaguei o cigarro que segurava nos lábios e levantei aéreo, só percebendo que minhas mãos desabotoavam os botões de sua camisa quando nossas mãos se encontraram quente no meio do caminho. Toquei sua ferida ao apertar a mão dele com força. Ele gemeu suave. E junto ao seu olhar percebi que não haveria mais volta. Sua linha da vida na palma da mão já estava rasgada desde a última noite, totalmente inundada por aquele líquido vermelho fervilhante. Foi quando senti que todos os demônios que soltamos por aquele apartamento nos olhavam em silêncio, ansiosos pelos nossos próximos passos. Tive medo que ele ouvisse o som do meu coração embora eu já não soubesse se era o meu ou o dele que batia tão acelerado.

Antes de continuar, preciso explicar;

Nunca dei o cú. É verdade. Não sou viado e nem o Leonardo é, apesar de ter comido ele na noite passada. Não foi viadagem. Foi dois machos se resolvendo entre quatro paredes, só isso. No sigilo de uma boa amizade. Afinal, nunca tive tesão em homens apesar de saber reconhecer um corpo bonito, seja ele de quem for. Os homens não admitem. Não tem coragem. Mas todos eles sabem reconhecer um corpo bonito, atraente. Acontece que há três semanas o Leo tem me tentado com algumas brincadeiras sacanas, daquelas que a gente sabe que tem alguma verdade querendo ser dita. Algo que precisa ser resolvido, domado. E foi assim, brincando, que ele disse que eu era a única pessoa pra quem ele daria se fosse viado. Isso me perturbou. Sério. Comer aquele cavalo de homem, aquela bunda dura, redonda, era um pensamento muito pervertido e tão exótico. Não consegui tirar essa imagem da cabeça.

Nessa mesma noite, o Leo acabou dormindo na minha casa. Bateu na minha porta sem aviso. Dizia que a namorada tinha terminado com ele. Então conversamos a noite toda, como bons amigos que somos, bebemos muito e falamos tanta besteira que de uma hora pra outra, percebi que estávamos no fim de nossa juventude, prestes a seguir nossas vidas por caminhos que talvez nunca mais se cruzassem. E como um relâmpago que atravessa o céu numa tarde de verão, aquela coisa de pegar mulherzinha-em-noitada-meter-a-piroca-a-noite-inteira-e-depois-largar, me pareceu tão sem graça. Umtédio de bucetas fáceis. Faltaria algo pra sempre. Algo que precisava ser vivido agora ou nunca. Faltaria, se no escuro daquela noite, de repente, o Leonardo não tivesse acendido a luz completamente nu e me permitido o proibido.

– Me come – Ele disse.

O Leo escancarou as coxas para que eu o penetrasse cada vez mais fundo com vontade de fazer ele se retorcer e gritar de dor, gemer em urro de bicho selvagem perdido. Queria que ele se arrependesse de me arrastar por esse desejo e pedisse perdão. Mas ele suspirava fundo enquanto empinava a bunda contra o meu pau, decidido em afunda-lo até doer meus ossos da bacia de tão profundo que metia em sua gula. Com os braços enrolados em torno de sua cintura, eu apertava meu corpo suado contra o dele e pretendia culpá-lo com alguma dor ao afundar dentro dele, mas seus olhos apenas reviravam em êxtase deixando a cabeça tombar para trás junto as minhas mordidas em sua carne macia e nuca completamente babada. Nenhum arrependimento estava presente ali, só urro e tesão.

Nesta noite. Não essa do Leo que acabei de relatar. Nesta noite de hoje, é a minha vez de implorar pelo corpo do Leonardo sobre o meu, colocado minhas costas para sentir seu corpo de macho, seus pelos, músculos e aquele membro duro latejando quente em meus vazios, me possuindo numa ferocidade de quem deseja se perder diante do tempo que nos coroe até a morte. Não sou viado – repetia em minha mente mais uma vez antes de gozar como um adolescente no meio dos cacos ao chão da cozinha. Queria viver na carne aquela culpa, o pecado, o terrível segredo.

Dentro daquela cozinha. O sax veio soando de algum lugar cúmplice. Entre os movimentos e o sangue que escorria, os cacos de vidro no chão sobre os nossos pés eram a única punição. Às vezes temos medos demais e eles devem ser encarados, ou viveremos para sempre numa punheta sofrida em meio a desejos reprimidos.

Por: Roosevelt Soares.