Wait…

Quer namorar comigo? Espere…me de um tempo… Preciso ajudar aquela idosa atravessar a rua, desviar de umas pessoas que andam apressadas e de cara fechada, chegar ao meu trabalho, apertar teclas de um computador, esperar o sino da capela da praça em frente tocar seis badaladas, sair pela escuridão, desviar de uma centena ou milhares de pessoas que passam apressadas e lotam vagões e ônibus, ficar em pé ouvindo música, olhar ao redor te procurando, abrir a porta de casa, entrar, abrir a janela, olhar as estrelas, contar as poucas que vejo através do vão que se forma entre os prédios, sentir um calafrio, ouvir a sirene de uma ambulância passando na rua, fugir para o meu quarto, fumar um cigarro enquanto coloco uma música para tocar na vitrola que herdei de vovó, dançar sozinho até o telefone tocar, eu dizer alô, ninguém responder, e cismar que era você, adormecer no sofá depois de umas cervejas e remédios, ao lado do telefone, com a agulha da vitrola agarrada num refrão de música romântica que eu não consigo esquecer. – “Sim! No sonho sempre você me pergunta e eu respondo de pronto que sim. Feliz dia dos namorados meu amor!” Mas antes… espere…preciso que os dias girem, que os planetas se alinhem novamente, que Saturno esteja em oposição ao Sol e que naquele exato momento eu consiga te reconhecer. Mas antes…espere…

Por Roosevelt Soares.

Solteiros caminhantes

Se me perguntam, digo que estou casado e saio pela esquerda, bem de fininho, rindo baixinho enquanto pego outra taça de champanhe que passa por mim e desapareço em meio a multidão. Não que eu goste de mentir, mas porque preciso desses momentos onde andarilho sozinho com meus versos, ideias, projetos e mentirinhas etílicas aqui e acolá. Um dia talvez reencontre aquele fogo do amor, pois o da paixão eu já tenho todos os dias ao meu lado. Aliás, por todos os lados. A cidade é linda não é. Em cada esquina uma paixão, como diria meu amigo amado. Mas na cama, é solidão-entretida, horas de viagens internas por pensamentos que precisam ser mastigados e digeridos. Com licença, estou em mutação – me conforto mentalmente. Não que eu goste ou desgoste. Não é sobre isso. É sobre finalmente estar bem e saber que vive exatamente o caminho que deveria estar e bem antes do encontro Dele. O próximo, a fila anda – diria uma outra amiga mais malandra. Por que a vida é assim. Um momento nos leva a outro e num piscar de olhos, tudo acontece de novo. Um salve aos casais. E um salve especial aos solteiros caminhantes.

Por Roosevelt Soares.

Bem-Vindos ao Mundo das Almas

Você só morre quando tudo aquilo que você realmente desejou, aconteça!

Alguns pedem coisas muito pequenas. São seres iluminados!

Outros pedem muitas coisas. São seres incautos!

Tudo é experiência e se algum dia você puder retornar pro lugar que estava antes de nascer, depois da morte, ou antes dela,- no meio das duas -e pudesse escolher como num parque de diversão das almas, que experiência precisa ter aqui na Terra. Talvez ganhe bônus por cumprir cada uma delas e as experiências mais difíceis e profundas, ganham muitos bônus.

Uns buscam morte prematura, do feto a juventude. E parece que tudo ficou incompleto, muito potencial desperdiçado. Outros são almas novas, crianças  que querem tudo do tudo, agora e com muita diversão.

Cada um vive a escolha que lhe cabe, desejados antes de nos materializar, conforme as necessidades da alma.

Alma,

Que Vaga,

vaga para encontrar o seu caminho de evolução.

 

Por Roosevelt Soares

O Jardim

Existe um jardim antigo com o qual às vezes sonho,
sobre o qual o sol de maio despeja um brilho tristonho;
onde as flores mais vistosas perderam a cor, secaram;
e as paredes e as colunas são idéias que passaram.

Crescem heras de entre as fendas, e o matagal desgrenhado
sufoca a pérgula, e o tanque foi pelo musgo tomado.
Pelas áleas silenciosas vê-se a erva esparsa brotar,
e o odor mofado de coisas mortas se derrama no ar.

Não há nenhuma criatura viva no espaço ao redor,
e entre a quietude das cercas não se ouve qualquer rumor.
E, enquanto ando, observo, escuto, uma ânsia às vezes me invade
de saber quando é que vi tal jardim numa outra idade.

A visão de dias idos em mim ressurge e demora,
quando olho as cenas cinzentas que sinto ter visto outrora.
E, de tristeza, estremeço ao ver que essas flores são
minhas esperanças murchas – e o jardim, meu coração.

H.P. Lovecraft

A pescaria

Vou contar uma historia recente, que os que acreditam em vida após a morte podem gostar. Meu padrinho faleceu há uns anos (tinha 90 anos). Numa noite recente, um tio (irmão desse meu padrinho, e que tem 68 anos) acordou no meio da madrugada, disse a sua esposa que tinha tido um sonho estranho, que seu irmão (meu padrinho), tinha sentado ao lado da cama dele e dito: “uai (eles são de Minas), tá ai ainda. to aqui te esperando para pescar”. Minha tia disse: “que bom, sonhar com seu irmão deve ser bom”. No raiar do dia, minha tia encontrou o marido morto ao seu lado….. premonição? De fato meu padrinho morto visitou meu tio e o confortou para o momento de sua partida? Não sei. Mas é poético o pensamento de os dois terem saído para pescar em algum lugar invisível.

Por Roosevelt Soares

O voo

Dificilmente explicável aquela presença selvagem onde tudo se parece com um miado, inevitavelmente ardente como as chamas do sol. Disse para mim mesmo: acho que vai chover. Ouvi tempestade. Mas fazia sol. – deve ser chuva de verão – me confortei. Mas ele ainda estava ali. Aquela lembrança de ter tocado tão profundo um anjo ferido, não foi um sonho. De ter cuidado para que suas asas voltassem a crescer. – Definitivamente vai chover, olha só aquelas nuvens negras do outro lado do mirante – resmunguei internamente. Mas ele ainda estava ali. E o calor queimava. Não por causa do sol – percebi repentinamente embaixo de uma confortável sombra enquanto suas asas se abriam magnificamente. Ele olhou para mim sorrindo, descabelado, com pentelhos encaracolados ao redor do pênis. Ser, o animal canibal, com presas afiadas grudadas em meu coração sangrento, doeu e teve prazer, até que um pingo de chuva caiu no meio da palma da minha mão e naquela pequena bolha que refletia tudo, ele voo como um pássaro, criando ventania e poeira com o bater de suas asas e finalmente. Só ai, uma chuva torrencial caiu. Mas ainda havia sol e arco-iris sendo refletido na bolha. Quando eu me dei conta, já era tarde, a bolha estourou e escorreu por entre meus dedos, me deixando sozinho no meio das nuvens negras, raios e trovões. Foi quando percebi que jamais o veria novamente, mesmo tendo curado suas asas, suas aflições, saciado seus desejos carnais. Um pecado. Um segredo. E o último voo em direção a liberdade – e do abandono.

Por Roosevelt Soares

A Gente se Acostuma por Lorelay Fox

Eu me taco no fogo e deixo queimar, quando não incendeio por onde passar. Eu me coloco em direção a facada, ao tiro, a porrada. Eu dou marretadas e desconstruo o monólito, o estático, para poder me movimentar – e ai de quem ou o que entrar na frente! Eu sou combustão, bomba atômica, abalo sísmico, sempre pronto a ativar. Eu não faço silêncio nem engulo. Eu cuspo e faço vomitar. Eu não balanço. Eu sacudo, questiono, respondo, não deixo me calar! Não! Eu não me acostumo!