O Jardim

Existe um jardim antigo com o qual às vezes sonho,
sobre o qual o sol de maio despeja um brilho tristonho;
onde as flores mais vistosas perderam a cor, secaram;
e as paredes e as colunas são idéias que passaram.

Crescem heras de entre as fendas, e o matagal desgrenhado
sufoca a pérgula, e o tanque foi pelo musgo tomado.
Pelas áleas silenciosas vê-se a erva esparsa brotar,
e o odor mofado de coisas mortas se derrama no ar.

Não há nenhuma criatura viva no espaço ao redor,
e entre a quietude das cercas não se ouve qualquer rumor.
E, enquanto ando, observo, escuto, uma ânsia às vezes me invade
de saber quando é que vi tal jardim numa outra idade.

A visão de dias idos em mim ressurge e demora,
quando olho as cenas cinzentas que sinto ter visto outrora.
E, de tristeza, estremeço ao ver que essas flores são
minhas esperanças murchas – e o jardim, meu coração.

H.P. Lovecraft

A pescaria

Vou contar uma historia recente, que os que acreditam em vida após a morte podem gostar. Meu padrinho faleceu há uns anos (tinha 90 anos). Numa noite recente, um tio (irmão desse meu padrinho, e que tem 68 anos) acordou no meio da madrugada, disse a sua esposa que tinha tido um sonho estranho, que seu irmão (meu padrinho), tinha sentado ao lado da cama dele e dito: “uai (eles são de Minas), tá ai ainda. to aqui te esperando para pescar”. Minha tia disse: “que bom, sonhar com seu irmão deve ser bom”. No raiar do dia, minha tia encontrou o marido morto ao seu lado….. premonição? De fato meu padrinho morto visitou meu tio e o confortou para o momento de sua partida? Não sei. Mas é poético o pensamento de os dois terem saído para pescar em algum lugar invisível.

Por Roosevelt Soares

O voo

Dificilmente explicável aquela presença selvagem onde tudo se parece com um miado, inevitavelmente ardente como as chamas do sol. Disse para mim mesmo: acho que vai chover. Ouvi tempestade. Mas fazia sol. – deve ser chuva de verão – me confortei. Mas ele ainda estava ali. Aquela lembrança de ter tocado tão profundo um anjo ferido, não foi um sonho. De ter cuidado para que suas asas voltassem a crescer. – Definitivamente vai chover, olha só aquelas nuvens negras do outro lado do mirante – resmunguei internamente. Mas ele ainda estava ali. E o calor queimava. Não por causa do sol – percebi repentinamente embaixo de uma confortável sombra enquanto suas asas se abriam magnificamente. Ele olhou para mim sorrindo, descabelado, com pentelhos encaracolados ao redor do pênis. Ser, o animal canibal, com presas afiadas grudadas em meu coração sangrento, doeu e teve prazer, até que um pingo de chuva caiu no meio da palma da minha mão e naquela pequena bolha que refletia tudo, ele voo como um pássaro, criando ventania e poeira com o bater de suas asas e finalmente. Só ai, uma chuva torrencial caiu. Mas ainda havia sol e arco-iris sendo refletido na bolha. Quando eu me dei conta, já era tarde, a bolha estourou e escorreu por entre meus dedos, me deixando sozinho no meio das nuvens negras, raios e trovões. Foi quando percebi que jamais o veria novamente, mesmo tendo curado suas asas, suas aflições, saciado seus desejos carnais. Um pecado. Um segredo. E o último voo em direção a liberdade – e do abandono.

Por Roosevelt Soares

A Gente se Acostuma por Lorelay Fox

Eu me taco no fogo e deixo queimar, quando não incendeio por onde passar. Eu me coloco em direção a facada, ao tiro, a porrada. Eu dou marretadas e desconstruo o monólito, o estático, para poder me movimentar – e ai de quem ou o que entrar na frente! Eu sou combustão, bomba atômica, abalo sísmico, sempre pronto a ativar. Eu não faço silêncio nem engulo. Eu cuspo e faço vomitar. Eu não balanço. Eu sacudo, questiono, respondo, não deixo me calar! Não! Eu não me acostumo!

Poema maldito número 12

Foda-se os padrões, a hora marcada, os sinais de trânsito, a grande nuvem negra carregada de tempestade pronta para cair junto as bandeiras hasteadas, a propriedade, o patriarcado, o patronato, os privilégios, o último lançamento, as doutrinas, as ideologias, a última moda da estação, o belo e o feio, o bom e o mau, toda ganância dos sangue sugas dessas nações sem corações. A meia-noite todos morreram incendiados por suas almas aleijadas. Seus olhos se voltaram para dentro de seus crânios e finalmente a escuridão será vestida como um traje fúnebre. Somente restará os desajustados, a escoria, os loucos à devorar carniças e trepar nos escombros de castelos e casebres. Teremos um amanhecer glorioso! É tempo dos desajustados caminharem livres sobre os escombros e fundarem uma imensa zona horizontal de caos e catarse.

Por Roosevelt Soares

Close your eyes…

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“Apenas feche os olhos, amor. E sonhe com um lugar onde nenhum coração jamais foi partido. Nenhum momento para apagar. Na minha mente vejo você agora, e só aquele sorriso em seu rosto”

Fight

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Tomei um esporro da vida. Nós gritamos um com o outro. Saímos na porrada. Rolamos no chão com socos e pontapés. Sangramos. Ela me pediu calma. Eu tentei a apunhalá-la com uma faca. Ela se esquivou e num golpe colocou a faca no meu pescoço. Eu pedi calma. Ela delicadamente abaixou a faca e a jogou para longe. Nós respiramos fundo e depois nos abraçamos e choramos juntos. Ela me pediu desculpas, disse que tentaria ser mais gentil. Eu assumi meus erros, disse que tentaria ser mais grato. Depois veio o silêncio. Olhares vagos. Não foi nossa primeira briga, nem será nossa última, mas algo me diz que com a vida é assim mesmo. Sempre alternaremos entre momentos pacíficos e de caos.

Por Roosevelt Soares