IMPULSOS

Escreva em caixa alta! Grite! Ligue o som no máximo – ajuste bem o grave. Deixe os vizinhos chamarem o sindico, a polícia. Dance desengonçadamente. Beije com lingua de polvo e complexo de aspirador de pó. Use uma droga. Se intorpeça. Corra nu. Fique sóbrio e sinta o horror. Penetre alguém! Seja penetrado! Trepe aos berros! Peça para ser sufocado até ficar roxo. Respire fundo. Brinque de roleta russa – só você, só uma bala! Espalme os dedos da mão sobre uma superfície reta e bata uma faca afiada e ponteaguda com velocidade acertando os meios dos seus dedos. Lamba uma navalha – mas não se corte. Suba no lugar mais alto e imagine ter asas – sinta o vento e o impulso de se tacar. Jogue ovo podre na casa ou em algum político. Deixe um buque de flores pra alguém que você odeia – e assine. Siga alguém sozinho no meio da escuridão. Sente na mesa de algum grupo e lance uma questão filosófica profunda – faça cara de psicopata. Fure seu dedo com uma agulha e prove do seu sangue. Deixe gotejar num papel branco e incontre um significado impossível. Agora volte a dormir!

Por Roosevelt Soares.

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Quantas pessoas invisíveis você deixou de ver hoje?

Às vezes, e tenho muito utilizado essa locução adverbial de tempo. A única coisa que você deseja é chegar ao fim do dia vivo e com sobreviventes a sua volta, sem ter quebrado nenhuma fina camada dessa realidade egoísta com sua rispidez aleatória. Quando foi que nos tornamos invisíveis? Não há mais “bom dia/tarde/noite”, o que existe é um passar de pessoas apressadas indo ou voltando de algum lugar cujo você não foi convidado. Mas você também vive esses dias. Quantas pessoas invisíveis você deixou de ver hoje só pela ânsia de fazer girar o seu maldito dia? Eu tento contar e numera-las na cabeça, só para tentar ser alguém que se importa. Mas me importo com o quê? Com elas ou comigo? É para me satisfazer ou para de fato tentar fazer do meu micro universo um lugar mais populoso, plural e humano. Voou com falas desconexas que ouço nas ruas e tento decifrar como se fossem códigos enquanto ando de cabeça erguida pois quero enxergar todos, da altura da rua, lá no fundo, até aquela janela indiscreta onde uma senhora fuma atrás das grades do seu apartamento desbotado no décimo andar. As frestas das janelas são surpreendentes. Pode se ver casais aparentemente apaixonados ou só no meio de uma foda casual como desconhecidos que marcaram aquilo por algum aplicativo de pegação, como podem nos mostrar a relação do humano com seus relicários ou costumes corriqueiros – regando uma plantinha murcha. Todos indo em frente, empurrando o dia que se constrói a golpes de extremo tédio se não houvesse a grande ilusão da rotina e do destino pelas quais a fazem caminhar, sonhar e ir adiante nem que tenha que atropelar tudo. Me sinto carente ao mesmo tempo que me sinto contemplativo e apático, sem nenhuma vontade de interagir com humanos-grudados-em-seus-gadgets e tentando de alguma forma burlar as regras dessas cidades zumbis enquanto sento calmamente ao lado de pombos, num banco que fede a urina humana e acendo o meu cigarro cancerígeno para curtir o fim do mundo.

Por Roosevelt Soares

Flanar

Não sei como vim parar aqui. Talvez dentro de uma tempestade, um furacão como aquele em que Dorothy voou. Às vezes doí. Às vezes sinto cocegas no estomago. Nem sempre quero engolir o mundo, mas cuspi-lo, vomitar. É meio montanha russa. Às vezes é agradável. Às vezes é só fumaça e álcool com um pouco de dança desengonçada em que meu corpo balança de lá e para cá. Eu ando sem relógio, nunca tive um. Flano só para ver as rachaduras das estruturas, o encardido, o musgo e encontrar vida onde não se é esperado. Trepo na minha sombra quando ela foge a galopes e quase caio, meio zonzo. Gargalho como um louco solitário. Nada tem nenhum sentido exato que eu não possa distorcer e rir por pura diversão. Quando ouço Sigur Rós sinto meu corpo levitar e gosto tanto dessa sensação que poderia deixar tocando em repeat, levitando, levitando…. Tenho andado meio entorpecido. Distante demais dessa terra barulhenta numa vã tentativa de não contaminar minha essência, apesar de nem saber do que ela é feita ou do que ela se alimenta. Mas só às vezes. É raro e tem gosto de chocolate que vai derretendo na boca aos poucos.

Por Roosevelt Soares.

Wait…

Quer namorar comigo? Espere…me de um tempo… Preciso ajudar aquela idosa atravessar a rua, desviar de umas pessoas que andam apressadas e de cara fechada, chegar ao meu trabalho, apertar teclas de um computador, esperar o sino da capela da praça em frente tocar seis badaladas, sair pela escuridão, desviar de uma centena ou milhares de pessoas que passam apressadas e lotam vagões e ônibus, ficar em pé ouvindo música, olhar ao redor te procurando, abrir a porta de casa, entrar, abrir a janela, olhar as estrelas, contar as poucas que vejo através do vão que se forma entre os prédios, sentir um calafrio, ouvir a sirene de uma ambulância passando na rua, fugir para o meu quarto, fumar um cigarro enquanto coloco uma música para tocar na vitrola que herdei de vovó, dançar sozinho até o telefone tocar, eu dizer alô, ninguém responder, e cismar que era você, adormecer no sofá depois de umas cervejas e remédios, ao lado do telefone, com a agulha da vitrola agarrada num refrão de música romântica que eu não consigo esquecer. – “Sim! No sonho sempre você me pergunta e eu respondo de pronto que sim. Feliz dia dos namorados meu amor!” Mas antes… espere…preciso que os dias girem, que os planetas se alinhem novamente, que Saturno esteja em oposição ao Sol e que naquele exato momento eu consiga te reconhecer. Mas antes…espere…

Por Roosevelt Soares.

Solteiros caminhantes

Se me perguntam, digo que estou casado e saio pela esquerda, bem de fininho, rindo baixinho enquanto pego outra taça de champanhe que passa por mim e desapareço em meio a multidão. Não que eu goste de mentir, mas porque preciso desses momentos onde andarilho sozinho com meus versos, ideias, projetos e mentirinhas etílicas aqui e acolá. Um dia talvez reencontre aquele fogo do amor, pois o da paixão eu já tenho todos os dias ao meu lado. Aliás, por todos os lados. A cidade é linda não é. Em cada esquina uma paixão, como diria meu amigo amado. Mas na cama, é solidão-entretida, horas de viagens internas por pensamentos que precisam ser mastigados e digeridos. Com licença, estou em mutação – me conforto mentalmente. Não que eu goste ou desgoste. Não é sobre isso. É sobre finalmente estar bem e saber que vive exatamente o caminho que deveria estar e bem antes do encontro Dele. O próximo, a fila anda – diria uma outra amiga mais malandra. Por que a vida é assim. Um momento nos leva a outro e num piscar de olhos, tudo acontece de novo. Um salve aos casais. E um salve especial aos solteiros caminhantes.

Por Roosevelt Soares.

Bem-Vindos ao Mundo das Almas

Você só morre quando tudo aquilo que você realmente desejou, aconteça!

Alguns pedem coisas muito pequenas. São seres iluminados!

Outros pedem muitas coisas. São seres incautos!

Tudo é experiência e se algum dia você puder retornar pro lugar que estava antes de nascer, depois da morte, ou antes dela,- no meio das duas -e pudesse escolher como num parque de diversão das almas, que experiência precisa ter aqui na Terra. Talvez ganhe bônus por cumprir cada uma delas e as experiências mais difíceis e profundas, ganham muitos bônus.

Uns buscam morte prematura, do feto a juventude. E parece que tudo ficou incompleto, muito potencial desperdiçado. Outros são almas novas, crianças  que querem tudo do tudo, agora e com muita diversão.

Cada um vive a escolha que lhe cabe, desejados antes de nos materializar, conforme as necessidades da alma.

Alma,

Que Vaga,

vaga para encontrar o seu caminho de evolução.

 

Por Roosevelt Soares

O Jardim

Existe um jardim antigo com o qual às vezes sonho,
sobre o qual o sol de maio despeja um brilho tristonho;
onde as flores mais vistosas perderam a cor, secaram;
e as paredes e as colunas são idéias que passaram.

Crescem heras de entre as fendas, e o matagal desgrenhado
sufoca a pérgula, e o tanque foi pelo musgo tomado.
Pelas áleas silenciosas vê-se a erva esparsa brotar,
e o odor mofado de coisas mortas se derrama no ar.

Não há nenhuma criatura viva no espaço ao redor,
e entre a quietude das cercas não se ouve qualquer rumor.
E, enquanto ando, observo, escuto, uma ânsia às vezes me invade
de saber quando é que vi tal jardim numa outra idade.

A visão de dias idos em mim ressurge e demora,
quando olho as cenas cinzentas que sinto ter visto outrora.
E, de tristeza, estremeço ao ver que essas flores são
minhas esperanças murchas – e o jardim, meu coração.

H.P. Lovecraft