TEXTO OBSCURO CAP.3

​O que é a morte se não o desligar – se por completo do seu corpo, mente, lembranças, matéria, do planeta, do Cosmos. Não me parece tão ruim! Aqui sentado ao lado das árvores secas de outono, caem, e parece – me uma vida inteira acontecendo conforme o seu cair. A única diferença – e não tenho certeza disso – é que parece que caímos com mais cor, porém com a mesma resiliência. O que fica é uma cama de retalhos que retalham a memória.

O meu deitar é transversal, gosto de ocupar e sentir as duas metades da cama e me cobrir só até a altura do umbigo – um pouco acima, um pouco abaixo.Eu disse para a minha psiquiátra que a maconha e o álcool quando bem dosados, tinham me devolvido, sendo medicado diariamente, me dando a sensação de ser um zumbi. Que aquilo – a maconha e o álcool -, acordaram, me devolveram a criatividade e agora ela estava berrando com fúria contra a sua prisão. Veio para explodir! 

“They tried to make me go to rehab, I said, “no, no, no”. Yes, I been black, But when I come back, you’ll know, know, know”, eu dançava ao som da minha playlist e dançava mais ainda em cima do local onde eu escolhi para morrer enforcado. É em frente a um espelho que se vê dos pés à cabeça. Eu sempre me via ali refletido, enforcado, mas ainda vivo, dançando com a corda o pescoço.

Minha cara Amy, não me leve hoje, porque possuo inveja de você. Não dá sua dramática vida, mas da sua prematura morte. Amy, estou falando coisas desconexas. Estou afundando. Extremamente deprimido. Mas ainda consigo dançar no escuro dos meus olhos fechados – será um convite para a escuridão? Não sei porque exatamente estou assim, pois mesmo com motivos concretos ou não, esse é um estágio que sempre entro e me perco da trilha de volta pra casa.

Minha corda para o enforcamento já está pronta e já afixei um gancho de rede de balançar, na parede – espero que esse me aguente e não me derrube no chão como da última vez. Sabe, não que eu vá me enforcar agora, mas só de saber que o gancho está ali, a corda pronta, já me tranquiliza.

Não posso morrer agora. Minha família está passando um drama. Meu pai esta fazendo hemodiálise, minha mãe de 67 anos está se esforçando pra cuidar dele e de toda a família. Como uma âncora! Não posso partir agora e deixar mais esse rombo na família. Mas a minha real vontade é de me mandar. Não sei como lidar com isso. Se grito. Choro. Escrevo….

Por Roosevelt Soares

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TEXTO OBSCURO CAP.2

Eu o via ali, sempre sentado no sofá vermelho da varanda. Ele sempre estava fumando. Ele iniciava com maconha e terminava com um cigarro – sempre nessa ordem. E nunca o via sem seu casaco preto de capuz. Pouco se via da sua pele muito branca e o cabelo sempre colorido. Era um garoto misterioso e sombrio, que as vezes saia na escuridão de luzes apagadas, com morcegos voando em volta do sofá vermelho e ele se sentava ali no meio e cumpria seu ritual de madrugada – talvez tivesse com insônia. Disse o vizinho que observava na espreita da sua janela do segundo andar que da de lado para quarto do suicida. Continuou – nunca pensei que ele se suicidaria ali, dentro do seu quarto. Fiquei chocado com a notícia – confessou o vizinho ainda atordoado, por morar ao lado de um jovem suicida do qual nada pode fazer para ajudar. – Soube que ele foi encontrado dormindo, ao lado de um boombox tocando músicas calmas. Pelo menos parece que ele não sofreu – continuou devagando o vizinho – mas o seu celular estava carregando, me pergunto porque se não haveria amanhã. Pra mim isso me diz que ele decidiu isso hoje a tarde, depois de colocar o celular pra carregar… caramba, podíamos ter salvo ele… ou… na verdade o boombox era via bluetooth…putzs…É isso. O celular tinha que ficar carregando para a música não parar. Provavelmente ele pensava que demoraria para morrer, mas o horário do óbito diz que só demorou meia hora. Soube também que ao seu lado ele havia terminado com três pacotes de cigarros e havia bingas e cinzas por toda a parte…como as que ele é agora. Qual teria sido o seu último pensando? 

Nesse momento. Eu. O escritor. Preciso interromper a narrativa para dizer qual era o seu último pensamento porque foi eu que escrevi e estou lá, no meio da cena.

Ele já não pensava mais em nada. Seus pensamentos da realidade que o cercava foi rapidamente tomada por delírios e sua mente estava há quilômetros daquele quarto. Sem dor. Sem sofrimento. Apenas leve, flutuante, como a mente de um recém nascido.​

Por Roosevelt Soares.

TEXTO OBSCURO – CAP.1

TEXTO OBSCURO – CAP.1

O lugar físico, depois de você, mais egocêntrico do mundo é o seu quarto – sua cama no centro ou de lado, todos os objetos ao seu redor e, voltados para você, como discípulos de um ser supremo, o criador. Ali você deita e se torna o centro do mundo. Você é capaz de controlar o passado, o presente diante de ti e construir o seu futuro – ilusório ou não. Você sonha e isso é como ser um Mago. Eu gosto de visitar quartos porque eles falam tudo sobre quem confia dormir ali. Eu gosto pouco de quem se mata em seu próprio quarto, mas prefiro aqueles que em seu último ato, escolhem morrer longe de seus quartos, fora de suas zonas de conforto. Ah…eu gosto de analisar suicidas, acho que são as pessoas mais interessantes do planeta. Mas voltando ao assunto, o cenário que escolhem os suicidas, me pergunto porque, não morrer numa suíte presidêncial do Copacabana Palace ou do Fasano, tendo a melhor vista do Rio de Janeiro, a melhor vista do mundo pulsando por todas as janelas ao seu redor, explodindo existência e te tentando a ficar, mas você só querer sair dali num saco do IML, sem pagar a conta de nada, morrer caloteiro ou aventureiro, você escolhe, vilão ou herói.

Por Roosevelt Soares

Um micro-conto paranóide entre o Império, o Poder e a Besta

Um micro-conto paranóide entre o Império, o Poder e a Besta – Era uma vez….Num mundo fictício. O software-cérebro passa a receber informações únicas a partir da projeção de imagens e sons, através de uma tela plana de alta definição, sinais são enviados diretamente para as mentes, grudadas no fundo de globos oculares, a projeção é comandada por fantoches em forma de dois representadores-polvo, um com olhos nas laterais da cabeça, não deixando nada escapar, e outra de sobrancelhas intimidantes por suas arqueaduras sensualizadas de forma bem sutil. A corporação informante, de engrenagens ocultas no subterrâneo das estruturas, dita o que se deve ou não acreditar. A cada vez que surgir um plano fechado do ombro até o rosto do representador-polvo, que divide as falas com o outro representador-povo, ambos de fala monotônica, é sinal de que o tom deve ser de seriedade, pois a informação vai representar para quem assiste, a mensagem de que algo sério e danoso que esta se alastrando em alguma parte das nações, e que, precisa ser contido, e assim, de forma semiótica, vai fixando e normatizando a realidade pré-estabelecida em escritórios de portas fechadas e com pessoas-lubrificantes, selecionadas entre as engrenagens e para as engrenagens. A mensagem é repetida diariamente, de várias formas diferente, através de uma rede planetária de antenas, satélites e cabos, ligados diretamente na casa de cada ser vivo do país, e vem exatamente as vinte horas e trinta minutos – variando de acordo com cada nação e fatos do dia. No intervalo, a programação vem dizer que Agro é Tudo, por tanto, TUDO, esta em tudo e, assim, não se tem como ignorar; que a nação é carregada por uma marca de veículo-diadema, por tanto, é poder, um amputamento que se desfaz como desejo de fascinação masculina, e por consequência, feminina [ou vice e versa, apesar de pouco comum] e segue com; uma marca de refrigerante ratificando que é entregue e encontrada em todo o planeta, prontinha para beber em qualquer lugar e momento, saciando o desejo da população por algo onipresente, acessível, doce e gaseificado – algum tipo de prazer inconsciente desviado do vazio interno humano que precisa ser preenchido e, agora gerado por anos de intensa projeção dos signos da corporação de líquidos negros com borbulhas – cujo a formula é mantida em segredo por três únicas pessoas. Enfim, a claustrofóbica sessão de descarrego de dados, não permite fuga, e acuado, o impacto dessas luzes coloridas, se metaforizando em milhares de rápidas imagens e sons, luzes e sombras mutantes, produz instantaneamente um efeito no cérebro do tele-specta-dor, que agora, de software atualizado, contém as informações necessárias para saber o que combater [não como], o Tudo incontestavelmente em Tudo, o veículo que vai lhe dar liberdade quando for de seu mérito, e o liquido que devem ingerir em momentos felizes ou tristes. Em Apocalipse [Revelação] 13:1, a fera de sete cabeças se mostra; “tem autoridade, poder e um trono” [Apocalipse 13:2.]; “governa sobre “toda tribo, e povo, e língua, e nação”; assim, é maior do que o governo de um único país” [ Apocalipse 13:7].
 
– E diariamente, quando a escuridão toma conta da cidade, milhões estão diantes de sua tela informativa iluminada.
 
O Fim!
Por Roosevelt Soares

10 anos depois, por onde vai o underground psicodelico carioca?

Esse texto eu escrevi porque recebi do meu amigo Rodrigo Gomes que agora está de blog novo (clique aqui), um artigo que escrevi em 2009 para o blog antigo dele, é um arquivo de backup, intitulado “NOVOS HORIZONTES – O UNDERGROUND CARIOCA DA SINAIS DE VIDA”, falando sobre os novos caminhos do underground psicodélico carioca. A baixo faço uma retificação, ou melhor, uma reflexão, de como mudei e do que acho hoje, em 2017, quase 10 anos depois, sobre o underground psicodélico carioca.


Cadê os NOVOS horizontes?

Nessa época, em 2009, eu ainda acreditava que o underground da psicodelia aumentaria e seria o nosso forte frente ao mainstream. Que pipocariam festas de 15 em 15 dias, até ser semanal. De fato funcionou por um tempo, mas no fim, virou paraísos artificiais (sem trocadilho com o filme de mesmo nome), um cluster fechado, sem oxigênio capaz de crescer e voltar a ter alguma significância, tendo bilheteria aberta para todo tipo de público. Na real não tinha bilheteria que se pagasse nem com o público fiel e por tanto a coisa quebrou. Foi ai que eu parei de frequentar e decidir me aposentar da “cena”. Eu sou povão e sempre participei da cena oferecendo o meu trabalho, seja como DJ, produção, decorador ou organizando a logística de transportes coletivos até o evento. Ou seja, eu trabalhava com o novo, com o qualquer um (o oxigênio), e quando o velho se estabeleceu como padrão e quase patriarcas, não consegui continuar pois minhas ideias sempre foram muito abertas. O que aconteceu de fato com o underground, é que ainda temos boas e poucas, quase únicas iniciativas, mas de resto, ao invés de aproveitar o espaço fora do convencional, para inovar, experimentar, apenas repetiram o que se faz em festivais, só que de forma reduzida e muitas vezes mal feita. Por tanto não podem ir muitas pessoas, não pode o qualquer um (existe uma seleção oculta), a não ser que esse venha por uma indicação, muito menos fanfas, esquecendo que um dia todos nós fomos qualquer um, fanfas ao descobrir algo novo. O cluster psicodelico se tornou um pequeno movimento hermético, com pequenos intercâmbios entre outros pequenos movimentos herméticos. A minha direção era outra. Eu queria enfase no público, na sua renovação e não nos DJ’s somente. Queria uma psicodelia urbana paralela ao do mato, como acontece em várias cenas estrangeiras, ocupando casas, casarões, galpões, inferninhos, locais públicos. Queria festas coletivas e colaborativas, festas/mini-festivais escolas, onde as pessoas pudessem se oferecer para trabalhar e aprender a produzir festas, para que elas se replicassem e não foi o que aconteceu, com tudo cada vez ficando mais centralizado em crews especificos. Queria uma renovação na decoração, usando exposições, arte de rua, grafites, intervenções de afrontamento, poesia, videografismo, nada perto de só formas geométricas suspensas, ets, lycras e deuses indianos (esse último, por favor né). Um bom exemplo do que estou falando foi o caso da Festa Imaginária, que junto a amigos do falecido fórum Plurall.org, no auge da proibição das raves, não podia se ouvir música eletrônica, fazer festas contendo música eletrônica, e então nós nos reunimos num flashmob na frente da Câmara Municipal, onde se reúnem os políticos do nosso estado e numa certa hora combinada, quem tivesse a senha (que era o horário e o set gravado anteriormente com a participação de vários djs), poderia participar com fones de ouvido, dando play na mesma hora, usando a tecnologia a nossa favor, cada um com um set de música eletrônica e bingo…estávamos fazendo uma rave proibida, bem ali na frente dos opressores, no meio da Cinelândia, uma rave silenciosa, só em nossos fones, mas com malabares, poesia, intervenção artística. Parecíamos um bando de malucos dançando juntos no meio da chuva.  Foi um ato político, ativista! E quando a música se junta a política, ativismo, é extremamente transformador, não só do lado interno da pessoa, algo que a psicodelia prega, mas também do lado externo, de toda a comunidade.

TRABALHO DO VJ ORION

Com a performance da atriz, apresentadora e poetisa Betina Kopp

Eu queria que cada flye fosse uma peça de arte, que cada cor, forma, conteúdo passasse uma mensagem além do primeiro olhar e dos batidos símbolos. Nada pensado só para vender um produto, como comercial de pasta de dente, com todos sorrindo e aquele amontoado de dj’s como se fosse missa gospel.

Eu não queria DJ’s em palcos altos, com cerca dividindo o público do DJ, muito menos área vip. Eu queria oficinas de ciberativismo, aprendizagem do olhar crítico se utilizando do cinema e outras formas de mídias. Eu queria debates filosóficos e políticos, pois como era possível dançar e permanecer no mesmo local onde alguns vão para um acampamento de traços “comunistas/socialista” e fazem doações de alimentos para instituições de caridade, pedem a legalização da maconha e outras substâncias psicoativas, mas criticam cotas raciais, programas sociais do governo, reagem mal a homossexualidade, não votam, e não se preocupam em discutir o país, nem em criar uma ferramenta de carona solidária (o básico), todos indo em seu carro, com sua turminha pro meio do mato. Virou um acampamento de férias, um refugio, nos mínis festivais e em festas, algo ainda não identificado, mas só pelos flyer já assustam.

Flyer de igreja
Flyer de igreja
Flyer de Rave

Tinha que existir formação de grupos capazes de propor o pensar/refletir o seu país, bairro e soluções para ele (com respeito as ideologias de cada um). Eu queria que as drogas que alteram a percepção fossem recolocadas em seu lugar, como opção, e não como a grande atração, drogas, com riscos de se consumir porcarias advindas do tráfico nacional e internacional e por tanto, essencial um grupo que testassem as drogas e informasse sobre a origem e redução de danos, pois sim, a palavra danos representa isso mesmo, ela pode causar danos e precisa ter cuidado, não pode ser usado como em uma corrida para ver quem fica mais chapado primeiro e por mais tempo. Mas o que aconteceu foi tudo ao contrário. Tivemos o fortalecimento do messianismo psicodélico, a louvação do DJ mais do que do público, da droga, da bolha onde todos pensam iguais como artefato de segurança. Quem pensa diferente está de fora! Se formos pensar no passado, o Rock surgiu como contestação ao sistema e as Raves também, porém o rock tornou outro caminho, tendo seus grandes lideres, vozes políticas, ativistas, já na musica eletrônica, em especial a psicodelica, virou uma maquina de produzir “isentões” ou “coxinhas”, que brincam de hippies por um final de semana. Vemos hoje fora o dancefloor, atividades como oficinas de yoga, meditação, permacultura, compostagem, horta urbana…bacana. Mas são sempre as mesmas. Eu já sei disso tudo desde 2003/2005 (quem frequenta há anos já viu isso). Porque não inovar? Formar novos DJ’s e colocar eles(as) para tocar. Criar um grupo com meses de antecedência para criar a própria cerveja que vai ser consumida na festa, talvez até mesmo produzir a própria droga em larga escala (eu sei que isso é ilegal, mas químicos nesse meio não faltam, e brownies ou cookies de maconha plantada em casa, numa cobertura da zona sul, que nós sabemos que existe, cairiam bem, seriam mais limpos, mas sem o objetivo de obter lucros) . Convidar movimentos afros, indígenas, além de facilitar o trânsito e incorporação da música eletrônica periférica, seja ela psicodelica ou naõ…mas ainda continuamos os mesmos… Foi a Enlight, núcleo que ajudei a criar junto aos DJ’s Flek, Erthal (atualmente aposentado), Ricardo (atualmente aposentado), Gui Passos, Felipe Rope (atualmente aposentado) e Caio Dallalana, o primeiro a voltar a investir em festas do underground psicodelica aqui no Rio, isso no ano de 2009, o primeiro a realizar um mini festival 100% colaborativo e sem o objetivo de lucro. Então sou muito grato a eles, tenho saudades e gosto muito dos que estão ai até hoje na frente desse movimento. Mas acredito que para sobreviver as futuras décadas, o bastão deve ser repassado junto com uma nova reflexão sobre tudo, destruindo velhos conceitos para se atualizar e criar novos horizontes.


Post publicado em 21 de abril de 2009 no blog do Rodrigo Gomes

Link: http://rcgomes.com.br/wp/novos-horizontes-o-underground-carioca-da-sinais-de-vida/

“De um lado o Rio de Janeiro é dominado por mega eventos de musica eletrônica, patrocinados por super empresas, conseguindo reunir de 3.000 a 20.000 pessoas em 12 horas de festa puramente comercial e recheada de atrações caríssimas, pra um público que pouco se importa com o que esta tocando, desde que esteja na moda ou figurando algum toplist por ai.

De outro temos eventos de médio porte, tentando vender atrações locais que não conseguem se desvencilhar do bairrismo, misturado com headlines internacionais, usando uma mídia muito semelhante à comercial de margarina ou sabão em pó, com pessoas pulando em meio a arco-íres e casinhas coloridas sobe um descampado verde, que sinceramente, é horrível e borrachudo, propaganda comprada pronta, tipo aqueles cd’s de cliparts que vendiam antigamente nas bancas de jornal acompanhados de uma revista de informática (flyer é arte, alguém lembra disso?). O público? Só Deus sabe, uma mistura que da até medo de tentar determinar antes de ser atacado e chamado de preconceituoso.

No fundo disso tudo, escondido em suas cavernas hitech, a tribo do “antigamente era melhor”, o povo que sobreviveu a lavagem cerebral do modismo graças aos i-pod’s, ferramenta fundamental onde o verdadeiro som ainda vibra forte e faz essa tribo ainda reviver (nem que seja em seus quartos) sensações antes compartilhadas em grupo em festões ao luar ou em baixo de um sol escaldante de Vargem Grande. Triste? Que nada, estava ai a receita pra construir o novo underground psicodélico da cena carioca.

Munidos de tecnologia e na velocidade da internet, festas e festivais secretos passaram a ser traçados e começam a pipocar pelos finais de semana. Podemos ser poucos, mas na hora de fazer barulho e juntar nossas forças a celebração atinge um pico de energia que instantaneamente os olhos voltam a brilhar, os corações esquecem os ritmos que podem ate não ser da preferência de alguns, mas vibra na mesma freqüência, com o mesmo gostinho de revival e com a mesma empolgação de descobridores diante de novos horizontes.

Uma das peças do quebra cabeça começou a se formar com o surgimento do coletivo de Djs Enlight, formado em 2007 com o objetivo de se tornar um núcleo de resistência underground dentro da musica eletrônica carioca. Cansados de festas comerciais, onde a preocupação com o público é pouca e a qualidade sonora é rara.

“O chamado vem sendo refeito há alguns meses, o público teve que ser testado, pra ver quantos ainda estão dispostos a entrar novamente no transe coletivo e acreditar na possibilidade de se criar novas ZAT’s psicodélicas (Zona Autônoma Temporária).”

Uma humilde amostra aconteceu em fevereiro, onde tivemos no Rio de Janeiro um mini festival colaborativo que serviu de base pra troca de vivencias, muita musica non stop e planos pro futuro próximo. E no ultimo dia 7 de março aconteceu a Enlight Label Party, uma festa um pouco mais aberta, com o objetivo de se recriar a atmosfera das extintas privates, que reuniu cerca de 200 pessoas em um sitio longíssimo, a 2 horas do Rio de Janeiro, ao som de Naked Turist (GER), Paula (FOP-SP), Deshi (FOP-SP) e os djs do coletivo Enlight.

Tanto o mini festival quanto a Enlight Label Party foram um sucesso. O público voltou ao espírito de coletividade, participando da construção da festa como local de celebração construído a varias mãos e pensamentos, onde não só o público interagia com respeito ao próximo, mas principalmente com a natureza, cuidando de seu próprio lixo, usando suas próprias canecas de plástico e porta bitucas de cigarro, que reduziram quase a zero a geração e permanência de lixo no dancefloor. Além disso, o intercambio com outras “cenas”, com o mesmo espírito de preservação de nossos valores ideológico, vem se fazendo presente e mais do que nunca necessário, demonstrando que a união pode, sim, restaurar nossos rumos enquanto movimento contra-cultural e despertar nova consciência e rumos. Os projetos de cunho social e solidário também estão sendo desenvolvido, com a ajuda do público não só doações, roupas, livros e alimentos, mas também dinheiro pra ser aplicado em ONGs que promovem a integração provendo educação.

Por todo canto e utilizando comunicação direcionada, surgem movimentações. Não desligue sua antena ou mude sua freqüência e junte-se a nos nessas novas e antigas celebrações.”

Por: Roosevelt Soares

É PRECISO DESCONSTRUIR DEUS

Quando eu era pequeno eu ia à igreja. Uma de dia, onde eu fazia um curso para fazer a primeira comunhão e a noite, eu ia em outra no meio do mato, cercado por estradas de terra, com aquela luz amarela, que funcionava num casebre. Eu rezava lá, antes de dormir, ao acordar, eu dava graças ao comer. Lembro que um dia eu fiz uma pergunta, na escolinha, e tomei um beliscão. Provavelmente era uma pergunta proibida. Eu, gênio forte. Passei a duvidar daquele lugar e invariavelmente fazia na inocência esses tipos de perguntas que eram respondidas por beliscões e olhares de repreensão. Sai da igreja cedo. Com uns sete anos estava reformulando sozinho a noção de céu, inferno, Jesus, Deus (pra mim o céu era igual ao parquinho da minha escola e ficava exatamente em cima da nuvens…rs…)…mas ainda rezava.

Rezei quando meus pais não tinham dinheiro para comprar comida e tomávamos caldinho de feijão por dias e dias, no café da manhã, no almoço e na janta. Rezei quando fomos morar num porão, no alto de uma comunidade, onde eu me divertia pescando ratos com uma linha que continha um pedacinho de carne na ponta. Rezei para ter festas de aniversário como os outros tinham. Ganhar presentes. Rezei em momentos difíceis, para que minha família encontrasse um caminho. Rezei quando meu pai perdia um emprego. Rezei para ele parar de beber. Rezei quando minhas funções vitais pararam de funcionar e eu embarquei pela primeira vez nas trevas profundas, ficando 365 dias em estado vegetativo, não conseguindo levantar ou me comunicar com meus próprios pais, vitima ainda muito jovem dos primeiros sinais da depressão que mais tarde evoluiria para a síndrome de borderline – e vivi isso mais de uma vez. E nunca Deus me ouviu.

Foi então que passei a questionar tudo que tinha aprendido e assim, aprender a pensar por conta própria. Comecei a matar Deus! A principio por vingança, por ato de rebeldia adolescente, cheguei a materializar fúria, quebrando todas as estatuas de santos(as) que havia em casa, cruzes e queimando bíblias. Fui um filho difícil (ainda sou) para uma mãe católica, do interior de Minas. Mas hoje eu sei que matei Deus, para poder construir algo mais forte e verdadeiro. Nunca mais rezei, pois acreditava e acredito que rezar, é tentar manipular Deus de forma egoísta, ou ainda pior, como se Deus não soubesse o que está fazendo. Nunca mais agradeci por nada, pois não podia tolerar agradecer a algo enquanto outros milhões de pessoas necessitavam tanto de alguma coisa. Não podia conceber um Deus que priorizava minhas vontades, necessidades e desejos acima dos outros, ou estaria acreditando num Deus completamente babaca. Um Deus punitivo, vingativo e mimado. Não. Esse Deus tinha que ser morto!

Com o tempo, aprendi filosofia, cosmologia, historia, ciências, biologia, geopolítica, poesia, literatura, formas de linguagens, entre outras, que me libertaram completamente da necessidade de um Deus. Não que esses ensinamentos digam isso, pois milhões aprendem sobre tudo isso e mais, porém ainda assim precisam de um Deus para suas questões. Entendi então que Deus é isso… morfina, uma hipótese, uma necessidade, uma força invisível, uma incógnita, um mito, ou um ponto final para sessar nossos questionamentos. Deus era aquele beliscão que eu recebia quando ainda criança e fazia perguntas demais. Jamais então aceitei que um terceiro viesse me falar de deus, pois o simples fato de falar sobre deus, significa entender sua linguagem, estar em seu nível. E se for para falar de nível, então eu preferia o nível da astrofísica, da cosmologia, da filosofia, das artes. Eles não falam de deus e é justamente assim, que conseguem se aproximar de um verdadeiro deus. Pois não existem respostas fáceis, apenas questionamentos, pingos temporários de conteúdo, reflexão, construção coletiva humana, imperfeita, sofrida. Um acumulo de informações recolhidas através de gerações e gerações de pensadores a pobres mortais através dos milênios.

Entendi então que somos uma fração de segundos, mergulhados numa sopa angustiante de letrinhas bagunçadas. Percebi que a vida após a morte, só existe na memória dos vivos. Que estar no céu, é ser bem lembrado. Que estar no inferno, é ser mal lembrado. Que morrer é decomposição, transformação, pó. Que todas as religiões além de servirem a interesses ocultos, são fruto do desespero, do ego que manda constantemente e de forma viciada a mensagem de que somos especiais e não um pequeno acidente fruto de bilhões de combinações caóticas, grudados numa rocha no meio do vácuo. Foi nesse caldeirão que ressuscitei Deus.

Deus: uma força incompreensiva no pensamento humano e no simbolismo, um transexual não-binário e multicolorido como um prisma com diferentes polarizações e ângulos. Pode ser amor incondicional. Homem. Mulher. Branco. Preto. Bom. Ruim. Mas acima de tudo, uma construção humana e por tanto, cabe a cada um sair das interpretações de contos infantis e avançar ainda que com medo e perdido, para fora de nossas limitações de compreensão. Sim. Se você leu até aqui. Talvez esteja me achando um completo idiota louco, ou talvez tenha gostado dessa versão. Mas definitivamente, escrevi esse texto para dizer que Deus não cabe em nossas cabeças. Sendo assim, estamos livres para teorizar, questionar, permitir, negar. E que seja grandioso a sua não-compreensão, digna de algo verdadeiramente divino e não apenas estático, palpável, rasteiro, miserável, mas uma constante mutante recheada de não-limites, grandioso…

Ah…e lembre-se. Nenhum templo é de fato mais sagrado do que a própria natureza, e isso inclui o seu corpo. E eu não sei de nada. Estou apenas refletindo. Isso é possível, permitido e profundamente aconselhável que você o faça sempre!

Por Roosevelt Soares

Existe vida após a morte?

A imagem, o pensamento, a ideia é reconfortante. Mas estou convencido que a vida após a morte é um mito para que adultos usem como ferramenta de sobrevivência, para suportar a dor da existência e da perda, como uma droga anestésica e potencialmente delirante. Morrer é desligar tudo. Nem escuridão, nem luz. Não há dor nem prazer. Paz ou caos. A única coisa que sobrevive a decomposição tóxica de um corpo morto é a memória que aquela vida gerou na cabeça dos que ainda sobrevivem (amigos, colegas, conhecidos, família…). E é a força dessa memória, misturada com a dor, quando evocadas, acionam mecanismos de defesa do organismo do ser humano capaz de criar ilusões de vivência de uma “experiencia com o mundo espiritual” (outro mito) e até materializar, através da projeção dos restitos de memórias, a presença do indivíduo morto, ressuscitando odores, criando falas e etc. A experiência espiritual, pós morte, só existe para o ser vivo, nunca para o ser morto. Pois para viver essa experiência é preciso vida, um cérebro que pensa, um organismo que funcione. E nada disso o morto possui. Para o morto apenas existe a decomposição.

Por Roosevelt Soares