O voo

Dificilmente explicável aquela presença selvagem onde tudo se parece com um miado, inevitavelmente ardente como as chamas do sol. Disse para mim mesmo: acho que vai chover. Ouvi tempestade. Mas fazia sol. – deve ser chuva de verão – me confortei. Mas ele ainda estava ali. Aquela lembrança de ter tocado tão profundo um anjo ferido, não foi um sonho. De ter cuidado para que suas asas voltassem a crescer. – Definitivamente vai chover, olha só aquelas nuvens negras do outro lado do mirante – resmunguei internamente. Mas ele ainda estava ali. E o calor queimava. Não por causa do sol – percebi repentinamente embaixo de uma confortável sombra enquanto suas asas se abriam magnificamente. Ele olhou para mim sorrindo, descabelado, com pentelhos encaracolados ao redor do pênis. Ser, o animal canibal, com presas afiadas grudadas em meu coração sangrento, doeu e teve prazer, até que um pingo de chuva caiu no meio da palma da minha mão e naquela pequena bolha que refletia tudo, ele voo como um pássaro, criando ventania e poeira com o bater de suas asas e finalmente. Só ai, uma chuva torrencial caiu. Mas ainda havia sol e arco-iris sendo refletido na bolha. Quando eu me dei conta, já era tarde, a bolha estourou e escorreu por entre meus dedos, me deixando sozinho no meio das nuvens negras, raios e trovões. Foi quando percebi que jamais o veria novamente, mesmo tendo curado suas asas, suas aflições, saciado seus desejos carnais. Um pecado. Um segredo. E o último voo em direção a liberdade – e do abandono.

Por Roosevelt Soares

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