10 anos depois, por onde vai o underground psicodelico carioca?

Esse texto eu escrevi porque recebi do meu amigo Rodrigo Gomes que agora está de blog novo (clique aqui), um artigo que escrevi em 2009 para o blog antigo dele, é um arquivo de backup, intitulado “NOVOS HORIZONTES – O UNDERGROUND CARIOCA DA SINAIS DE VIDA”, falando sobre os novos caminhos do underground psicodélico carioca. A baixo faço uma retificação, ou melhor, uma reflexão, de como mudei e do que acho hoje, em 2017, quase 10 anos depois, sobre o underground psicodélico carioca.


Cadê os NOVOS horizontes?

Nessa época, em 2009, eu ainda acreditava que o underground da psicodelia aumentaria e seria o nosso forte frente ao mainstream. Que pipocariam festas de 15 em 15 dias, até ser semanal. De fato funcionou por um tempo, mas no fim, virou paraísos artificiais (sem trocadilho com o filme de mesmo nome), um cluster fechado, sem oxigênio capaz de crescer e voltar a ter alguma significância, tendo bilheteria aberta para todo tipo de público. Na real não tinha bilheteria que se pagasse nem com o público fiel e por tanto a coisa quebrou. Foi ai que eu parei de frequentar e decidir me aposentar da “cena”. Eu sou povão e sempre participei da cena oferecendo o meu trabalho, seja como DJ, produção, decorador ou organizando a logística de transportes coletivos até o evento. Ou seja, eu trabalhava com o novo, com o qualquer um (o oxigênio), e quando o velho se estabeleceu como padrão e quase patriarcas, não consegui continuar pois minhas ideias sempre foram muito abertas. O que aconteceu de fato com o underground, é que ainda temos boas e poucas, quase únicas iniciativas, mas de resto, ao invés de aproveitar o espaço fora do convencional, para inovar, experimentar, apenas repetiram o que se faz em festivais, só que de forma reduzida e muitas vezes mal feita. Por tanto não podem ir muitas pessoas, não pode o qualquer um (existe uma seleção oculta), a não ser que esse venha por uma indicação, muito menos fanfas, esquecendo que um dia todos nós fomos qualquer um, fanfas ao descobrir algo novo. O cluster psicodelico se tornou um pequeno movimento hermético, com pequenos intercâmbios entre outros pequenos movimentos herméticos. A minha direção era outra. Eu queria enfase no público, na sua renovação e não nos DJ’s somente. Queria uma psicodelia urbana paralela ao do mato, como acontece em várias cenas estrangeiras, ocupando casas, casarões, galpões, inferninhos, locais públicos. Queria festas coletivas e colaborativas, festas/mini-festivais escolas, onde as pessoas pudessem se oferecer para trabalhar e aprender a produzir festas, para que elas se replicassem e não foi o que aconteceu, com tudo cada vez ficando mais centralizado em crews especificos. Queria uma renovação na decoração, usando exposições, arte de rua, grafites, intervenções de afrontamento, poesia, videografismo, nada perto de só formas geométricas suspensas, ets, lycras e deuses indianos (esse último, por favor né). Um bom exemplo do que estou falando foi o caso da Festa Imaginária, que junto a amigos do falecido fórum Plurall.org, no auge da proibição das raves, não podia se ouvir música eletrônica, fazer festas contendo música eletrônica, e então nós nos reunimos num flashmob na frente da Câmara Municipal, onde se reúnem os políticos do nosso estado e numa certa hora combinada, quem tivesse a senha (que era o horário e o set gravado anteriormente com a participação de vários djs), poderia participar com fones de ouvido, dando play na mesma hora, usando a tecnologia a nossa favor, cada um com um set de música eletrônica e bingo…estávamos fazendo uma rave proibida, bem ali na frente dos opressores, no meio da Cinelândia, uma rave silenciosa, só em nossos fones, mas com malabares, poesia, intervenção artística. Parecíamos um bando de malucos dançando juntos no meio da chuva.  Foi um ato político, ativista! E quando a música se junta a política, ativismo, é extremamente transformador, não só do lado interno da pessoa, algo que a psicodelia prega, mas também do lado externo, de toda a comunidade.

TRABALHO DO VJ ORION

Com a performance da atriz, apresentadora e poetisa Betina Kopp

Eu queria que cada flye fosse uma peça de arte, que cada cor, forma, conteúdo passasse uma mensagem além do primeiro olhar e dos batidos símbolos. Nada pensado só para vender um produto, como comercial de pasta de dente, com todos sorrindo e aquele amontoado de dj’s como se fosse missa gospel.

Eu não queria DJ’s em palcos altos, com cerca dividindo o público do DJ, muito menos área vip. Eu queria oficinas de ciberativismo, aprendizagem do olhar crítico se utilizando do cinema e outras formas de mídias. Eu queria debates filosóficos e políticos, pois como era possível dançar e permanecer no mesmo local onde alguns vão para um acampamento de traços “comunistas/socialista” e fazem doações de alimentos para instituições de caridade, pedem a legalização da maconha e outras substâncias psicoativas, mas criticam cotas raciais, programas sociais do governo, reagem mal a homossexualidade, não votam, e não se preocupam em discutir o país, nem em criar uma ferramenta de carona solidária (o básico), todos indo em seu carro, com sua turminha pro meio do mato. Virou um acampamento de férias, um refugio, nos mínis festivais e em festas, algo ainda não identificado, mas só pelos flyer já assustam.

Flyer de igreja
Flyer de igreja
Flyer de Rave

Tinha que existir formação de grupos capazes de propor o pensar/refletir o seu país, bairro e soluções para ele (com respeito as ideologias de cada um). Eu queria que as drogas que alteram a percepção fossem recolocadas em seu lugar, como opção, e não como a grande atração, drogas, com riscos de se consumir porcarias advindas do tráfico nacional e internacional e por tanto, essencial um grupo que testassem as drogas e informasse sobre a origem e redução de danos, pois sim, a palavra danos representa isso mesmo, ela pode causar danos e precisa ter cuidado, não pode ser usado como em uma corrida para ver quem fica mais chapado primeiro e por mais tempo. Mas o que aconteceu foi tudo ao contrário. Tivemos o fortalecimento do messianismo psicodélico, a louvação do DJ mais do que do público, da droga, da bolha onde todos pensam iguais como artefato de segurança. Quem pensa diferente está de fora! Se formos pensar no passado, o Rock surgiu como contestação ao sistema e as Raves também, porém o rock tornou outro caminho, tendo seus grandes lideres, vozes políticas, ativistas, já na musica eletrônica, em especial a psicodelica, virou uma maquina de produzir “isentões” ou “coxinhas”, que brincam de hippies por um final de semana. Vemos hoje fora o dancefloor, atividades como oficinas de yoga, meditação, permacultura, compostagem, horta urbana…bacana. Mas são sempre as mesmas. Eu já sei disso tudo desde 2003/2005 (quem frequenta há anos já viu isso). Porque não inovar? Formar novos DJ’s e colocar eles(as) para tocar. Criar um grupo com meses de antecedência para criar a própria cerveja que vai ser consumida na festa, talvez até mesmo produzir a própria droga em larga escala (eu sei que isso é ilegal, mas químicos nesse meio não faltam, e brownies ou cookies de maconha plantada em casa, numa cobertura da zona sul, que nós sabemos que existe, cairiam bem, seriam mais limpos, mas sem o objetivo de obter lucros) . Convidar movimentos afros, indígenas, além de facilitar o trânsito e incorporação da música eletrônica periférica, seja ela psicodelica ou naõ…mas ainda continuamos os mesmos… Foi a Enlight, núcleo que ajudei a criar junto aos DJ’s Flek, Erthal (atualmente aposentado), Ricardo (atualmente aposentado), Gui Passos, Felipe Rope (atualmente aposentado) e Caio Dallalana, o primeiro a voltar a investir em festas do underground psicodelica aqui no Rio, isso no ano de 2009, o primeiro a realizar um mini festival 100% colaborativo e sem o objetivo de lucro. Então sou muito grato a eles, tenho saudades e gosto muito dos que estão ai até hoje na frente desse movimento. Mas acredito que para sobreviver as futuras décadas, o bastão deve ser repassado junto com uma nova reflexão sobre tudo, destruindo velhos conceitos para se atualizar e criar novos horizontes.


Post publicado em 21 de abril de 2009 no blog do Rodrigo Gomes

Link: http://rcgomes.com.br/wp/novos-horizontes-o-underground-carioca-da-sinais-de-vida/

“De um lado o Rio de Janeiro é dominado por mega eventos de musica eletrônica, patrocinados por super empresas, conseguindo reunir de 3.000 a 20.000 pessoas em 12 horas de festa puramente comercial e recheada de atrações caríssimas, pra um público que pouco se importa com o que esta tocando, desde que esteja na moda ou figurando algum toplist por ai.

De outro temos eventos de médio porte, tentando vender atrações locais que não conseguem se desvencilhar do bairrismo, misturado com headlines internacionais, usando uma mídia muito semelhante à comercial de margarina ou sabão em pó, com pessoas pulando em meio a arco-íres e casinhas coloridas sobe um descampado verde, que sinceramente, é horrível e borrachudo, propaganda comprada pronta, tipo aqueles cd’s de cliparts que vendiam antigamente nas bancas de jornal acompanhados de uma revista de informática (flyer é arte, alguém lembra disso?). O público? Só Deus sabe, uma mistura que da até medo de tentar determinar antes de ser atacado e chamado de preconceituoso.

No fundo disso tudo, escondido em suas cavernas hitech, a tribo do “antigamente era melhor”, o povo que sobreviveu a lavagem cerebral do modismo graças aos i-pod’s, ferramenta fundamental onde o verdadeiro som ainda vibra forte e faz essa tribo ainda reviver (nem que seja em seus quartos) sensações antes compartilhadas em grupo em festões ao luar ou em baixo de um sol escaldante de Vargem Grande. Triste? Que nada, estava ai a receita pra construir o novo underground psicodélico da cena carioca.

Munidos de tecnologia e na velocidade da internet, festas e festivais secretos passaram a ser traçados e começam a pipocar pelos finais de semana. Podemos ser poucos, mas na hora de fazer barulho e juntar nossas forças a celebração atinge um pico de energia que instantaneamente os olhos voltam a brilhar, os corações esquecem os ritmos que podem ate não ser da preferência de alguns, mas vibra na mesma freqüência, com o mesmo gostinho de revival e com a mesma empolgação de descobridores diante de novos horizontes.

Uma das peças do quebra cabeça começou a se formar com o surgimento do coletivo de Djs Enlight, formado em 2007 com o objetivo de se tornar um núcleo de resistência underground dentro da musica eletrônica carioca. Cansados de festas comerciais, onde a preocupação com o público é pouca e a qualidade sonora é rara.

“O chamado vem sendo refeito há alguns meses, o público teve que ser testado, pra ver quantos ainda estão dispostos a entrar novamente no transe coletivo e acreditar na possibilidade de se criar novas ZAT’s psicodélicas (Zona Autônoma Temporária).”

Uma humilde amostra aconteceu em fevereiro, onde tivemos no Rio de Janeiro um mini festival colaborativo que serviu de base pra troca de vivencias, muita musica non stop e planos pro futuro próximo. E no ultimo dia 7 de março aconteceu a Enlight Label Party, uma festa um pouco mais aberta, com o objetivo de se recriar a atmosfera das extintas privates, que reuniu cerca de 200 pessoas em um sitio longíssimo, a 2 horas do Rio de Janeiro, ao som de Naked Turist (GER), Paula (FOP-SP), Deshi (FOP-SP) e os djs do coletivo Enlight.

Tanto o mini festival quanto a Enlight Label Party foram um sucesso. O público voltou ao espírito de coletividade, participando da construção da festa como local de celebração construído a varias mãos e pensamentos, onde não só o público interagia com respeito ao próximo, mas principalmente com a natureza, cuidando de seu próprio lixo, usando suas próprias canecas de plástico e porta bitucas de cigarro, que reduziram quase a zero a geração e permanência de lixo no dancefloor. Além disso, o intercambio com outras “cenas”, com o mesmo espírito de preservação de nossos valores ideológico, vem se fazendo presente e mais do que nunca necessário, demonstrando que a união pode, sim, restaurar nossos rumos enquanto movimento contra-cultural e despertar nova consciência e rumos. Os projetos de cunho social e solidário também estão sendo desenvolvido, com a ajuda do público não só doações, roupas, livros e alimentos, mas também dinheiro pra ser aplicado em ONGs que promovem a integração provendo educação.

Por todo canto e utilizando comunicação direcionada, surgem movimentações. Não desligue sua antena ou mude sua freqüência e junte-se a nos nessas novas e antigas celebrações.”

Por: Roosevelt Soares

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s