Anjo Negro

Marcamos à meia noite, dentro do Cemitério São João Batista, na Zona Sul do Rio de Janeiro, em frente ao túmulo do Cazuza, olhando exatamente onde estava escrito seu epitáfio “o tempo não para”. Informação essa que só os verdadeiros fãs sabiam. E vem cá. Quem marcaria um primeiro encontro num cemitério? Emos? Punks? Góticos? Só gente doente e pervertida. E é exatamente esse tipo de freak que gosto. Gente normal eu enjoou. Tenho dor de cabeça, dor no corpo, taquicardia, sudorese e nada disso é legal. Até o meu crânio coça. Então preciso de um filtro para encontrar essas pessoas, os sociopatas, os excluídos, os bizarros e aqueles que fatalmente vão acabar se matando ou matando alguém. É desse tipo de pessoa que eu me interesso. Ai você deve estar pensando: tarado, pervertido! Que nada, meu bem. Está enganado se acha isso de mim, na verdade só estou a procura de algum macho para dormir de conchinha. Eu também preciso disso, gatona. Alguém para agarrar, calor humano enquanto assisto uma série. Só que a humanidade está tão escrota, que só os exóticos e periféricos dão valor e não tentam dar um significado profundo a isso. É só uma deitadinha. Um abraço. Nem vou falar nada, se não estraga. Deixo para falar com minha terapeuta do SUS. Ela adora. Além de estar sendo paga para isso. Ela deve ser feliz no trabalho dela porque ninguém vira terapeuta por acidente. Se estuda anos e anos. Então faz o que gosta. Penso logo assim. Por isso à meia noite. No túmulo do Cazuza. Porque era 4 de abril de 2018, ano em que Cazuza completaria sessenta anos. Nessa noite eu queria alguém para chorar ou me ver chorar e talvez, só por um segundo, existisse a possibilidade de alguém falar alguma coisa tranquilizadora e trivial, para confortar uma pessoa sozinha nesse mundão, já na casa dos quase quarenta, jovem, mas que se considerava mais perto do adjetivo velho. Pronto. Lá vem ele. De preto, com a camisa do Misfit por baixo de uma jaqueta negra de couro, luvas negras, black jeans descusturado em várias partes e um coturno negro. Ele parou na minha frente e ficamos nos medindo no meio daquele ambiente cheio de túmulos ao redor e pouca iluminação. Parecia que ele tinha vindo para me matar. E eu gostei desse pensamento.

– Boa noite. Prazer, Anjo Negro.

– Boa noite, Anjo Negro. Prazer, Yago!

Anjo Negro tinha os cabelos brancos de tanto pó descolorante e olhos claros reluzentes. Fiquei encantado. Acho que a noite hoje vai dar super certo. Não posso negar que sua beleza me surpreendeu positivamente. Dentre todos os freaks que encontrei, Anjo Negro é disparado o melhor deles. E olha que encontro muita gente bacana em locais inusitados como esse. Mas poucos com a sua beleza, totalmente anjo das trevas. Um sedutor de olhar. Com cabelo esvoaçante e jeito sexy de fumar. Fumar para mim é flertar com uma das piores mortes possíveis. Aquela que infringe anos de dor ao enfermo antes de o extermina-lo da face da Terra. Por medo eu não fumo. Mas já fumei. E a forma como o Anjo Negro fuma é uma tentação do inferno. Belo, sedutor e fumante…você acaba querendo ir para o túmulo com ele. Sem perceber, é claro. É aquele lado autodestrutivo que todos possuem falando mais alto. Mas eu só queria assistir um seriado da Netflix de conchinha. Nunca tive essa experiência. Quando eu namorava não tinha isso. Hoje tem e quero sentir.

– Gosta mesmo de Cazuza né?

– E quem não gosta?

– Está chamando meu gosto de comum, popular?

– Tô sim. Poderíamos nos encontrar no cemitério de Highgate, de St. James, fica em Londres, na Inglaterra, e tem como habitante mais ilustre o sociólogo alemão Karl Marx.

– Não sou marxista, sorry!

– Foda-se. Eu tb não. Mas tô falando que seria melhor lá!

Nossa. Gostei dessa atitude mandão dele…

– Ok. Mas estamos aqui. Tem algo em mente? – Perguntei sem achar que ele tinha um plano.

– Sim. Te fuder o rabo em cima do túmulo.

– Não, seu tarado pervertido! Te chamei para gente ver uma série de conchinha.

– Aff… tá brincando?

– Eu falei sério quando especifiquei: ACOMPANHANTE FREAK PARA ASSISTIR SÉRIE NO NETFLIX. Meu anúncio era único! Como você agora finge que não entendeu?

– Juro, achei que era pilha da fantasia. Sério mesmo que você não quer que eu te coma em cima do túmulo? Nem uma fodinha desse tipo?

– Sério! Vem comigo assistir uma Netflix de conchinha? Quem sabe você esteja certo…mas acho que não vai rolar nada…

– Caramba. Cada vez a coisa piora mais [riso contido nos lábios]

– O que você achou que eu era?

– Um freak carente, obivio. Que não vê um caralho há tempos.

– Nada disso seu bostinha. Eu quero o que pedi no início. Quem veio fantasiando as coisas foi você, cara.

– É. Pode ser. Mas se bem que não vejo uma série com alguém do lado há tempos…

– Então. É a nossa chance! Vamos?

Ele veio comigo até o meu quarto. Não falou nada no caminho. Só ouvi o som da sua bola de chiclete estourando algumas poucas dezenas de vezes. Será que ele vai entender mesmo ou vai tentar algo? Pior. Será que eu vou tentar algo?

Chegamos ao meu prédio. Abri o portão de grade num apê localizado em Botafogo, na rua Mena Barreto, e subimos até o meu andar.

– Entre. Aqui é o meu quarto. Se entra pela varanda que da para a piscina mesmo. É mais particular.

– Uau. Você mora numa cobertura?

– Sim.

– Que vista incrível da cidade toda iluminada você tem.

– A vista é maravilhosa, né. Não se vê praia nem os cartões postais do Rio porque apesar de ser cobertura meu apartamento ainda é baixo, mas se vê a cidade acesa, se movimentando lá embaixo e aqui em cima fica essa coisa tranquila. Um distanciamento da cidade no meio da cidade. Venha. Vamos fazer um tour. […] Aqui é o meu quarto. Essa não é a entrada principal do apartamento. A principal fica na sala. Aqui. Do outro lado. Entra… Aqui é o banheiro do meu quarto e lá para fora é cozinha, banheiro social, escritório e sala. Você pode passear por aí se quiser. Quer uma bebida?

– Claro. O que você tem?

– Whisky, Vodka, Cerveja, Catuaba, pó do bom, maconha e até LSD.

– Nossa heim. Você não brinca em serviço.

– [risos] Não. Gosto muito de brincadeiras psicoativas.

– Se é para ser um encontro doido. Então acho que vou de LSD e pó. Pode ser?

– Claro. – Me abaixei ao lado da cama e peguei uma caixinha de música com bailarina que ficou de lembrança da minha mãe. De lá de dentro retirei um retângulo inteiro do blotter da Bike 100 anos de Albert Hofmann e uma cápsula de pó. – Olha, mas só o LSD vamos tomar agora. O pó é para depois podermos conversar sobre o que vamos assistir, ok?

– Beleza.

Colocamos na boca o LSD e nos beijamos .

– E o que vamos assistir? – Perguntou Anjo Negro olhando curiosamente para o fundo do meu olhar.

– Que tal Crash, estranhos prazeres? Do cineasta David Cronenberg?

– Eu gosto desse canadense pevertido…

– Conhece?

– Sim. Mas não vi esse filme ainda. Do que se trata?

– Vou te ler a sinopse: Após sofrer um acidente de carro, James desenvolve uma doentia atração sexual por Helen, uma das vítimas do desastre. Através dela, conhece um grupo de fanáticos que reconstitui famosos desastres automobilísticos em busca de prazer.

– Uau. Deve ser o máximo.

– E é! Vamos ver?

– Claro.

Anjo da Noite então foi retirando seus cuturnos e deixando sua meia longa negra com caveirinhas brancas se exibir.

– Deita aqui. Já vou dar o play…

Ele deitou também tirando a jaqueta de couro e a jogando na poltrona de leitura do meu quarto. Arrumou os seus cabelos, que não falei, era até o ombro e meio revoltado. Ele colocou os fios do cabelo atrás da orelha e se aconchegou deitando atrás de mim.

– Pode chegar mais perto. Me espreme contra o seu corpo!

– Mas… aí você vai sentir uma ereção encostando bem na sua bunda, cara.

– Tenho muitas coisas para me incomodar. Sua ereção não chega perto de nenhuma delas.

Ele se aproximou. Encostou sua ereção volumosa bem no meio da minha bunda e deu uma rassada.

– Calma. Não precisa me atiçar também, né.

– Juro que não estou fazendo isso. Estou naturalmente excitado e me arrumando atrás de você para assistirmos ao filme.

Ele então se arrumou atrás de mim, com sua calça cada vez mais volumosa e de membro duro encostando na minha bunda.

– Posso tirar a camisa?

– Claro.

Ele tirou a camisa e tive certeza do achado que fiz. Seu corpo era espetacularmente magrelo, branco e definido. Uma perdição. Príncipe das trevas!

– Ai…

– O que?

– Nossa, você é muito gostoso!

– Obrigado. Mas não é para você… Lembra? “Só quero assistir a um filme de conchinha” [risos de deboche].

– É verdade… Vamos ver o filme então…

Dei o play.

O filme começou.

Aliás, o filme é uma total aberração que eu adoro e pior, me deixa excitado.

– Acho que vou tirar a roupa. O que você acha?

– Ótimo.

– Não vai tirar?

– Não costumo a assistir filme nu. Só a camisa já tá bom.

Ok. Eu tirei minha roupa no meio daquele quarto só iluminado pela luz psicodélica da TV e da que vinha da área da piscina e voltei a deitar nos braços de Anjo Negro que me espiou em todos os movimentos, tirando cada parte da minha roupa, cada peça; casaco de moletom, camisa branca, meu corpo branco exposto, minha calça, quase de quatro, com a bunda voltada para Anjo Negro até que finalizei retirando a cueca. Num automatismo mais frio do que eu desejava.

O filme foi ficando tenso.

Senti uma vontade danada de ter um caralho invadindo o meu cu.

Foi quando me desliguei da TV e me virei para trás dando outro beijo na boca do Anjo da Noite. Dessa vez, nos beijamos longamente, loucamente, com línguas disvairadas, mordendo lábios, afundando línguas em bocas. Derretendo, um se misturando ao outro, molécula por molécula e eu as podia ver e sentir, cores, texturas, formas geométricas sagradas.

– Quer fuder? – Perguntou na dúvida Anjo Negro.

– Não exatamente…Ou sim. Mas tem que ser do meu jeito, ok?

– Ok. Como você quer?

– Quero que meta na minha bunda… mas deixe o pau duro lá dentro… fazendo um vai e vem devagar às vezes, até meter pressão no fim e no auge do filme gozar na minha cara. O que acha?

– O que eu acho? Delícia!

– Tem tesão para ficar duas horas só metendo devagar com ele duro e sem gozar?

– Tenho!

– Então mete safado!

Ele me meteu a piroca. Estávamos deitados de lado. Eu abri as pernas e coloquei uma delas em cima da sua, deixando um vão para ele meter e tirar a vontade a piroca. Fomos assistindo o filme e de fato ele fez tudo que prometeu. Enquanto assistiamos, de ladinho, ele foi enfiando o caralho e movimentando ele vagarosamente, me invadindo o cu e quase saindo total o caralho até voltar a afundar ele dentro da minha bunda. Como se seu caralho escapasse e tivesse que contido e novamente penetrado. Nossa… Que delírio. Muito tesão envolvido. O pau dele não ficou mole um só minuto. Enfiado no meio das minhas quentes nadegas, a piroca dele parecia ter ganhado um lugar confortável para se abrigar do solitário e frio mundo.

– Ai, mete fundo!

Ele meteu e eu gemi.

O filme estava acabando.

– Vai me fode. Com violência!

E ele começou a me fuder violentamente, enfiando fundo e puxando a piroca para fora, dando aquela sensação desconfortável de estar vazio.

– Mete!

Ele meteu até os ovos e eu queria falar, mete os ovos também. Mas já estava bom. Era só um pensamento pornográfico de filme. Afinal ninguém mete as bolas.

– Vai, mais fundo.

Nossa, ele me comeu como eu merecia. Me carcou como um homem deve fazer. Enfiando fundo. Enfiando tudo para despertar mais gula e voltando a enfiar até os ovos. Que delícia. E a essa altura, estávamos derretendo do efeito do LSD. Eu não sentia mais o meu cu. Só vontade de ter uma piroca inchada para sempre dentro dele. Mas tinha que acabar. Ele me virou totalmente de bruços e começou a meter violentamente. Sem dizer uma palavra. Só gemidos eram ouvidos. O filme estava na cena final quando gozamos juntos. Ufa. Que gozada cara. Teria jorrado até o teto se eu não tivesse de bruços. E ele foi suspirando, ganhando fôlego com a respiração quente vindo direto na minha nuca. Totalmente arrepiante seu bafo quente. Me fez gozar com mais intensidade.

Acabamos. É o que tenho a dizer, mas não digo. Anjo Negro viu o filme do meu lado. Meteu-me o caralho e gozou junto comigo. E nada disso eu experimento há anos. Então foi tudo maravilhoso. Ter uma pica para passar a mão, apertar, lamber e meter se quiser (e eu fiz tudo isso). Era tudo o que eu precisava além da deitadinha de conchinha – Só descobri na hora que precisava também de pirocadas.

– Beijos Anjo da Noite.

– Beijos – nos beijamos calorosamente no deck da piscina que da saída para uma das portas principais do meu apartamento.

– Te vejo por aí?

– Onde você me encontrou! Mas claro, não estarei lá para sempre vivo.

Anjo da Noite então me deu mais um beijo na boca e foi saindo de fininho do meu quarto enquanto amanhecia e eu percebia que nem havia dado conta do tempo. Do outro lado das minhas persianas o dia prometia sol. E eu só queria ficar aqui dentro pensando em Anjo Negro e em nossa próxima aventura sexual. Com certeza seria no topo de algum prédio comercial alto do Centro. Um heliporto! – desejei.

– Adios…

[Esquecemos até do pó]

Por Roosevelt Soares.

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O COBRADOR

INTRODUÇÃO

Novecentos e seisenta e seis dias de nuvens passando por janelas panorâmicas de ônibus em trânsito pela cidade de Niterói.

Parte I

JONAS

Todo dia, pontualmente às sete horas da manhã, eu pegava o ônibus 46 da viação Pendotiba, que liga a minha casa até o Centro de Niterói. Eu entrava, passava o meu cartão da passagem, dava “bom dia” ao motorista e ao cobrador que sempre respondia e ia me sentar. Como minha casa era perto do ponto final/ou de partida, ainda pegava o ônibus muito vazio. Sentado, eu tirava meus fones de ouvido da mochila, ligava meu som que tinha de tudo. Do pop comercial dos anos 80 a decada atual. Tomava um Rivotril e a partir daí toda a viagem era embalada pelos sons que vinham do meu fone e pelas leituras de livros que estava lendo naquele momento, como Hilda Histi em “Estar Sendo Ter Sido”. Eu amo a Hilda. Sempre uma ótima companhi e o bom de usar fones de ouvido é que com eles, você desliga o mundo. Então era só eu e Hilda por quase duas horas de trânsito. E de fone, ninguém fala com você. É uma coisa meio autista. E às oito e meia, oito e cinquenta eu chegava no Centro da cidade e subia o prédio do meu trabalho de elevador até o sexto andar. O dia? Sempe uma correria!

Em casa, já à noite. Me sobrava forças só para jantar e dormir. Ou ver alguma série. Mas nessa noite, passando o olho no celular, acabei conhecendo um novo aplicativo de encontros gays. O diferencial desse app. era mostrar outros caras gays que cruzaram o seu caminho. Baixei! Eu estava me sentindo muito sozinho e queria conhecer caras legais. Como não sobrava tempo, um app. seria uma maravilha. Porém uma semana se passou e os mesmos caras de sempre queriam também o mesmo que em todo aplicativo gay: homens sarados, pirocudos e ativos. E eu não sou desse tipo padrão. Tenho uma leve barriguinha e minha piroca é de tamanho normal. Ou seja, nunca avançava além da conversa com outros caras.

Depois de um final de semana merecidamente de folga, voltei a minha rotina de trabalho numa segunda-feira. Claro. E às sete horas da manhã, lá estava eu no mesmo ponto de sempre. Dei sinal para o ônibus, subi os degraus, dei “bom dia” para o motorista Jorge, nome que eu já sabia pois estava escrito no crachá dele, o mesmo motorista de todos os dias e de repente me deparei com um cobrador novo. Cheiroso, jovem, com gel no cabelo deixando a parte de cima arrepiada, usando um óculos RayBan falsificado mas bonito em seu rosto quadrado e apesar das lentes escuras, dava para ver que seu olhar era bem bonito e os lábios, me ganhou: carnudos, tipo os de Cauã Reymond ou do jogador da seleção, Thiago Silva. Eu só sei que fiquei louco para beijar aquele homem. E não era só por estar carente. O cara tinha borogodo, me entendi. Ele não tinha talvez a beleza padrão, mas tinha uma áurea masculina, de destruidor na cama. Isso é ter borogodo! Aquele cara que sabe fazer de uma forma caliente e inesquecível. Pois é. Viajei bastante nele. Ele era o meu número! Fiquei nervoso e quase não consigo responder: b…bom…Bom dia! Corrigi a minha postura ao passar pela roleta e fui caminhando pelo corredor até a minha poltrona, localizada no meio do ônibus. Achava estratégico na sobrevivência de acidentes e na visualização do ônibus inteiro com apenas uma virada de pescoço. Me sentei. Coloquei os fones e me arrependi de não ter saído com um óculos escuros bem grandão, que veda tudo e não da para saber de forma alguma para onde você está olhando. Enfim. Não faziam nem cinco minutos que tinha entrado naquele ônibus e já estava completamente apaixonado. Que coisa!

Hoje, troquei a companhia da magnífica e sedutora Hilda, pelo cobrador. E o chamo assim, porque ainda não consegui ler e nem me atrever a perguntar, o nome dele, de tão nervoso que fiquei ao passar pela roleta, só eu e ele, presos, conectados. Com suas mãos cheia de veias e carnuda, de pelos negros brilhante em cima de uma pele morena por natureza. Uma delícia!

Parei de olhar para o cobrador por alguns instantes e olhando em outra direção – procurava, qual? Olhei pela janela ao meu lado e quer saber de uma coisa, querido leitor? Na verdade são duas as coisas. Um: não vi nada através da janela, só um monte de pensamentos embasados. Te conto isso só para você ver o nível de fissura, que estava pelo cobrador. Só conseguindo ver ele. Minha vista se autoajustava sempre em direção a ele. Estava hipnotizado! Como girassóis que giram sempre a procura do sol. Nossa. Como sou gay. Í. Me lembrou um conto do Caio Fernando Abreu que eu amo! Ah. E, dois: É que você, leitor ou leitora, já deve ter desconfiado a essa altura do meu relato. E sim. Eu vejo você agora! Mas isso é nosso segredinho. Pois antes. Quero te fazer gozar! Então me segue.

A essa altura. Eu estava é tomando consciência de que eu teria que descobrir quem é esse boy e se ele curte. E se não curtir. Meu bem. Eu vou fazer ele curtir!!!

Parte II

RAMIRO

Às sete horas da manhã seguinte. Tinha um plano em movimento. Dei sinal para o ônibus e, lá estavam o Jorge e o cobrador boy magia. Porém, dessa vez, vou usar dinheiro. Separei então três reais e noventa centavos – o preço da passagem. Coloquei no fundo da minha mochila e iniciei o pesadelo dos cobradores, ainda mais sufocante em ônibus iniciando sua viagem. Saquei e paguei minha passagem com uma nota de cem reais. Assim ele seria obrigado a iniciar um diálogo comigo e eu poderia demostrar como sou um cara bacana.

Lá fui eu. O ônibus parou. Eu subi. Dei “bom dia” para ambos – e acho que o ônibus inteiro ouviu. Ainda bem que eram uns seis passageiros. Passei pela roleta, dei um sorrisão para o cobrador – caprichei em casa na pasta de dente clareadora, com fórmula no carvão. E tirei do bolso a minha arma secreta.

– Poxa, você não tem nota menor amigão?

– Caramba. Deixa eu ver. Acho que posso ter alguns trocados no fundo da mochila mas não tenho certeza se chegam a cobrir o valor da passagem.

– Então. Você passa. Porque se não o ônibus não anda. E na poltrona, com calma, você separa o dinheiro. Vai descer onde?

– No Centro. Final de viagem… Mas acho que devo ter aqui sim. Me da um minuto…

Ele girou a roleta. Eu passei. Fui para o meu lugar. Fiquei lá uns três minutos fingindo catar moedinhas dentro da mochila. E pior que estava nervoso com a segundo ato do plano. Então não conseguia mesmo juntar as moedas que previamente havia largado no fundo da mochila – podia ter usado um bolso específico, com todas juntas. Dammit! Pronto… achei! Vou lá pagar a passagem, perguntar ou ler o nome dele.

– Oi. Aqui! Achei uns trocados para facilitar a “nossa” vida hehe.

– Opa. Que ótimo. – O cobrador abriu um sorrisão.

E na minha imaginação eu quase vi ele piscar com um olho por de baixo dos óculos, em minha direção.

– Qual seu nome? Não consigo ler no crachá…

– O meu? É Ramiro.

– Ah, legal Ramiro. O meu é Jonas. Tá aqui a grana trocadinha, viu.

– Valeu, queridão. Obrigado e boa viagem.

Queridão? Pois é. Mas o que importa é que agora eu sabia o nome dele e já tinha conseguido me apresentar para ele. Voltei para o meu acento. Pensando em cada palavra dita. Será que ele me achou um playboyzinho distraído, que não pensa em facilitar a vida de um cobrador? Queria ter dito que o nome dele é bonito. Mas fiquei com medo dele perceber que eu estava dando em cima dele e ele recuar, se fechar. Mas oras, ele tem que saber mesmo, se não como vou conseguir sair com ele. Lá vai eu com minha mania de me apaixonar por héteros. Mas eu olhei o dedo dele. Pelo menos não tem nenhuma aliança. Ele deve ser solteiro pelo menos. E nunca conheci um gay chamado Ramiro – eu ri para dentro. Masculino né?

Uma semana se passou e o único momento em que nos falávamos era na roleta, um “bom dia” recíproco. E meu plano tinha afundado… Não sabia como conquistar aquele macho. Até que na sexta-feira de manhã eu entrei naquele ônibus decidido a pegar o whatsapp do Ramiro e a partir daí, paquerar ele.

– Bom dia Jorge.

– Bom dia garoto.

– Ué. Cadê o Ramiro?

– Ele estava pensando em se desligar da empresa, é tudo que sei…

– Caramba…

Pensando na falta que Ramiro faria naquela viagem, no meu dia-a-dia, eu nem falei com o cobrador novo e ele não falou comigo. Fui mortalmente abatido até a minha poltrona. Naquele ônibus que logo seria entupido de gente com todos os odores da terra. O trânsito nos faria andar feito lesmas em direção ao abatedouro. E todo esse terror de pegar o ônibus no horário de rush da manhã voltou a me abater. Nessa última semana que passou, eu tinha usado meus melhores óculos, roupas e perfumes que compro com a grana suada do meu empreguinho. Para quem me vestir agora?

Naquela noite de sexta-feira, eu aceitei depois de muito tempo sem aceitar, a sair com o pessoal da empresa para um happy hours e beber depois do expediente. Na verdade ninguém do meu trabalho sabe de mim e ninguém lá me interessa. Sou o tipo de cara que passa desapercebido. Pois só a minha cabeça é afeminada. Meu corpo é duro e ereto. Caminho com os olhos lá em cima. Meu corpo sofre de uma repressão auto-ímposta. Eu me obrigo a ser visualmente macho. Talvez me falte alguns anos de terapia. Mas o fato é que acho sexy ser assim. Ou sou mal resolvido mesmo. Tanto faz. Sou homem que curte outros homens! Adimiro muito os gays afeminados. Afinal, eles que revolucionam tudo. E eu estou bem com isso, pelo menos por enquanto. Meus desejos são bastante imediatista, carnal, material, sabe? Eu tô é com a cabeça no Ramiro, enquanto a minha volta as pessoas falam e falam, se espremem, espalham odores fortes para uma manhã tarde demais, para tudo.

Às quatro da manhã de um amanhã que eu não folgo e faltando três horas para estar limpo, sóbrio e arrumado para trabalhar. Deixo meus colegas que iriam folgar, continuar a beber enquanto volto para casa e na sequência, volto ao trabalho. O mundo estava girando, literalmente na minha cabeça e parecia que a ressaca já tinha se instalado, pois sentia também muita sede e uma leve dor de cabeça brotando. Vou chamar um uber – pensei. Mas ao abrir o celular, percebi que havia recebido uma mensagem no aplicativo gay. Bêbado. Encontrar alguém naquela hora para uma foda rápida pode ser bom. Abri o aplicativo e morri de ódio. Era mensagem de propaganda. E boom… Meu celular foi arrancado das minhas mão por um ladrão de bicicleta. Nem tentei correr atrás. Na real, demorei alguns minutos para entender o que de fato tinha acontecido. Porra. Entrei para as estatísticas. Que imbecil. Porque não corri atrás dele… também, e se ele tivesse uma faca ou qualquer coisa perfurante, assassina. Acho que fiz bem. Com tanto álcool e problemas na cabeça, estava difícil até de raciocinar. Voltei cabisbaixo para o bar onde eu e meus amigos estávamos e não tinha ninguém mais lá. Putz. Lembrei que deixei meu dinheiro todo na capinha do celular…como vou embora?

Sentado na calçada. Quase em depressão. Senti algo duro na minha calça. Apalpei e tcha-naaam, surgiu meu cartão de passagem, preso a minha calça por um cordão e mosquetão. Por um segundo fiquei aliviado pois poderia pegar um bus até em casa. Decidido! Levantei e fui para o ponto. Ainda com medo de ser assaltado de novo, agarrei o cartão com força, segurando nas duas mãos como uma jóia. Seis minutos esperando e lá veio o bus. Dei com uma certa dificuldade o sinal para o busão que parou como tinha que ser. Em algumas passadas com os pés pesados e subi os degraus, passei a roleta e fui andando meio capenga até o assento final do busão. Sentei. Tomei o Rivotril que sempre tomo nas viagens e fiquei olhando através das janelas panorâmicas do ônibus passando pelas ruas iluminadas com postes e janelas acesas. Até que num borrão, eu vi o rosto do Ramiro. Ahhhh. Eu fiquei viajando nele até que percebi, embassado, misturado ao reflexo de todas aquelas janelas solitárias, o impossível. Era mesmo o Ramiro no canto oposto ao meu. Ele estava com a cabeça na janela. Dormindo. Eu não acreditei naquilo. Você acredita? Puta sorte, puta destino! Eu compreendi todos os erros, coisas e situações que não deram certo na minha vida, porque tudo isso, como o roubo do celular, me levou a reencontrar o amor da minha vida. Ramiro! Nossa. Que onda. Finalmente tomei coragem para olhar ao lado e verificar se não era somente uma ilusão fruto de uma mente dopada, um corpo cansado e carente. Ok. Vou olhar logo.

Parte III

O ÔNIBUS

– Ramiro…? – falei baixinho.

– Ramiro! – falei derretendo na cadeira.

Ramiro estava definitivamente ao meu lado, dormindo, com o uniforme de cobrador e camisa semi aberta, três botões abaixo da gola. Tinha uma tatuagem de algo que ou era Carpa, ou era o São Jorge montado no Dragão. Nem prestei atenção. Só o seu peitoral extremamente másculo, com pelos negros a mostra. Será que toco nele? Não posso né.

– Ramiro. – falei normalmente enquanto me aproximava do lado dele.

– Ramiro!

E numa curva, ele deitou a cabeça no meu ombro. Nossa. Fiquei totalmente sem reação. Deu para sentir o cheiro dele. Alguma fragrância doce, um pouco de suor de macho e cigarro, dele ou de outra pessoa, eu não sei – e pensei nisso procurando com os olhos se enxergava dedos amarelados de fumo nas suas mãos. Me senti tão seguro ali do lado dele; meu Ramiro! Pude apreciar cada detalhe dele enquanto dormia e fiquei mudo … até no pensamento. Olhei ao redor e não percebi ninguém com o alcance de visão até a parte traseira do ônibus. Minha mão então deslizou por cima da minha calça, apertei a piroca que estava começando a ficar dura e babar. Então lentamente fui folgando o cinto e meti uma das mãos dentro da calça e segurei com força o meu pau, deslizando a mão para cima e para baixo, numa punheta improvisada. Armado! De pau na mão, com parte quase saindo para fora do zíper se abrindo com o movimento e a dureza do meu piru crescendo, moreno, grosso. Latejando! Enquanto encostado com a cabeça no meu ombro, era possível também sentir o calor do Ramiro. Eu só fechava os olhos para imaginar esse homem me fudendo. Sabor de vinho bom e caro, sendo jorrado na minha cara numa ejaculação de Ramiro. Porra. Que homem gostoso! O calor da minha mão cavalgando em minha piroca aumentou e prestes a gozar, abro os olhos e, Ramiro também está com a mão dentro de sua calça de cobrador, batendo uma. Caralho. Aquilo me assustou ao mesmo tempo em que fiquei com muito tesão que até gozei nas mãos. E Ramiro continuou de cabeça no meu ombro, fingindo dormir e ao mesmo tempo se punhetando. Entender essa situação, bêbado como estava, me parecia uma puta sacanagem entre homens ou um delírio de tanto álcool, maconha, rivo e teco que dei durante a madrugada. Era surrealmente maravilhoso. Foi ao tomar essa consciência que me atrevi. Com a mão ainda gozada, enfiei ela lentamente nas calças de Ramiro, abrindo o seu zíper. E sentia que ele me ajudava com alguns movimentos e aquilo me confirmou que eu estava no caminho certo. Finalmente minha mão chegou ao seu caralho quente e cheguei a estremecer com sua rigidez e grossura, cheio de veias pulsando sangue, tesão. A mão de Ramiro dentro das calças eram carnudas, com pelos mas costas das mãos – senti enquanto enfiava minha mão em sua calça. A mão então veio e pegou na minha, colocou a minha mão de baixo da dele e deu um apertão envolta da sua piroca e, depois, iniciamos juntos um movimento de sobe e desce violento até que na pressão Ramiro abre os olhos, revira, vira sua cabeça e morde com força o meu pescoço. Ele goza. Na minha mão. Líquido espesso, com temperatura quente, pegajoso. Doido para lamber.

Após gozarmos, a cabeça de Ramiro ficou no meu ombro até que ele teve que levantar sua cabeça do meu ombro, bocejar, se espreguiçar, fechar o zíper que ainda estava meio aberto e enfim, olhou para mim.

– Fala garoto. Sumido heim?

– Eu? Na verdade você, Ramiro. – Me atrevi a falar seu nome em voz alta e em tom amigável, talvez íntimo.

– Eu mudei para o turno da noite. Se paga mais…

– Ah…entendi. Sempre nesse horário você tá saindo do trabalho?

– Tô cara. Vê se não some, Jonas. – e Ramiro piscou um olho para mim.

– Já vai?

– Vô. Minha esposa mora aqui. É meu ponto…valeeeu. – E Ramiro deu o sinal enquanto Jonas tentava entender como Ramiro sabia o seu nome. Noiva? O que foi tudo isso? Foi real?

FIM

Novecentos e seisenta e seis dias de nuvens passando por janelas panorâmicas de ônibus em trânsito pela cidade de Niterói.

Por Roosevelt Soares.

Estado de Anarquia

Quando o sol vai se pôr, eu costumo estar pedalando pela orla de alguma praia de Niterói, debaixo daquele céu com fundo alaranjado e tons de vermelho ondulado pelas rajadas de ventos que varreram o ar. E consigo sentir toda essa terra indígena gritando e aplaudindo o pôr do sol, que chega também junto as luzes das cidades do outro lado da Baía da Guanabara se acendendo. E todas as pessoas se deslocando na imensidão. Eu sei que vai ter tiroteios, assaltos, que eu inclusive posso a qualquer instante virar mais uma estatística. Aqui é assim. A beleza da natureza e o caos da humanidade. A anarquia ocupa enormes espaços. E eu me torno consciente de que a essa hora, as crianças e jovens das favelas estão chegando de suas escolas ou arrumando espaços para brincar, em meio a fios, vergalhões, antenas de todo o tipo. Você não sabe que Deus é a constelação de Órion? Uma das oitenta e oito constelações modernas. Está localizada no equador celeste e, por este motivo, é visível em praticamente todas as regiões habitadas da Terra, principalmente nas noites do hemisfério sul. A constelação de Órion é notável pela presença de muitas estrelas brilhantes, que formam figuras de fácil reconhecimento. Entre elas figuram Alnitak, Alnilam e Mintaka, três estrelas que constituem o Cinturão de Órion, conhecido popularmente como as Três Marias. Vejo as estrelas do entardecer e sei que elas estão morrendo, que talvez algumas já estejam até mortas, mas ainda estamos recebendo o seu reflexo pois demora anos luz para se apagar o brilho de uma estrela. Isso quer dizer, o brilho delas sobrevive muito mais do que sua existência. E por algum motivo nessa noite essa ideia me conforta, de sermos feitos da poeira das estrelas, como fala meu astrônomo americano favorito, Carl Sagan. Peço então que algum ser cósmico superior abençoe essa terra, de leste a oeste e de norte ao sul. Ninguém sabe o que pode acontecer agora. Mas todos seguem suas vidas com a intenção de acordar vivo no dia seguinte e honrar seus compromissos. Com as luzes das cidades, Rio e Niterói acesas, pedalo lentamente pela orla, sentindo um vento fresco no rosto, tocando minha pele, esvoaçando fios de cabelo. Tá tudo ruim! Mas de alguma forma o carioca, o brasileiro, vai tirando pingos de felicidade ou qualquer coisa parecida, do seu cotidiano, família, amigos e o pouco de lazer que ainda lhe restam. É meio assim que me sinto hoje. Me sinto impotente e até com vergonha de alguma forma eu estar bem.

Por Roosevelt Soares.

MEU PRIMEIRO AMOR

Ainda éramos adolescentes. Eu morava em Minas Gerais nessa época. E brincava muito com uma dupla de irmãos gêmeos. Eles eram lindos. O Yuri era o mais falador. Adorava contar causos, piadas e parecia mais interessante do que é, porque sabia concentrar a atenção nele. Ele tinha um rostinho quadrado, lindo, como o do irmão e um cabelo negro bem lisinho, bem cortado, com uma franjinha que às vezes caia charmosamente em seu rosto. Eu adorava ele. E o Yago, seu irmão, era por ele que eu sentia um enorme tesão.

Apesar de gêmeos, Yago era um garoto mais encorpado, tinha o corpo todo desenhado, mais musculoso que o Yuri. Yago era também mais silencioso. Não era de falar muito. Tinha as sombrancelhas levemente mais groças que a do Yuri e seu cabelo era cortado a máquina, bem baixinho, o que dava ainda mais um ar de masculinidade, meio malvado quando fechava a cara e franzia a testa, e ele sempre vazia isso, talvez sentisse que estranhamente isso o tornava mais sexy ou, seja só um tique mesmo e eu é que estou viajando, apaixonado. Afinal escrevo isso hoje, homem adulto. A memória já não é mais a mesma.

Na época, tínhamos todos 13 e 14 anos, no caso dos irmãos. Eu já sabia que era gay. Já tinha me esfregado com alguns amiguinhos no bairro onde nasci, no subúrbio do Rio de Janeiro. Sabe, praticado a famosa “meinha”, que é quando um amigo toca punheta para o outro. Mas eles não eram gays sabe. Naquele época, morando em Minas de passagem, meu pai tinha sido transferido para trabalhar lá pelo período de um ano e depois voltaríamos para o Rio. Porém no momento que conheci Yuri e Yago, me deu vontade de ficar lá para sempre, só para poder ver os dois todos os dias, ficando mais homens e belos e quem sabe, aumentando minhas chances de tentar conquistar um deles. Quem sabe os dois?

Confesso que os hormônios da idade mecheram muito com minhas fantasias adolescente. Foi aí que conheci a Bia. Peça chave nessa história. Nós morávamos numa cidade do interior, nos anos 90, definitivamente aquela cidade não era nem um pouco amigável com gays, de qualquer espécie. Mas a Bia era nossa amiga mulher macho. Não assumidamente gay. Mas eu sabia que ela era. Meu radar gay tocou com ela, que tinha 14, quase 15 anos. Ela andava de skate com Yuri e Yago. Eu tentava seguir eles. Não conseguia me equilibrar naquele troço.

Só entrei mesmo no meio desse trio quando chegou a moda dos patins. Aí sim eu sabia que conseguiria seguir eles, pois tinha equilíbrio e a coragem, na verdade a injenuidade de um garoto de 13 anos que se acha imortal e por isso se taca em tudo de cabeça, sem medir muito as consequências. Então eu calçava o par de patins com eles, ficava em pé e saíamos patinando pelas estradas daquela cidade interiorana, passando pelo meio de carros, pegando carona ao se segurar na traseira de ônibus e caminhões. Uma farra ou uma aventura perigosa. Tanto fazia…

Foi nessas andanças que um dia fomos até a antiga usina de mineração de ferro e a Bia tinha uma tia com casa lá, onde poderíamos nos banhar numa nascente e depois retornar para a cidade, que ficava há uns 8km dali. Era um local de floresta. Eu fiquei receoso, afinal não tinha avisado a minha mãe que iria demorar, e naquela época, só telefone fixo e no meio do mato não tem. Tentei então desistir, inventar alguma desculpa, mas o Yuri e a Bia colocaram pilha para que eu fosse. O Yago disse que iria tomar banho na nascente só de cueca, ou nu, se desse na telha dele, e a partir daí, minha mente acelerou junto com o coração e meus desejos vieram com tudo. Eu finalmente iria ver Yago completamente pelado, ou de cueca, tanto faz.

Tiramos então os patins, vestimos os calçados que estavam em nossas mochilas e seguimos uma trilha no mato até a casa da tia de Bia. Chegando lá, a casa estava fazia e ficava mesmo no meio do mato. A eletricidade da casa vinha de uma engrenagem por onde a água da nascente escorria, girava algumas coisas e assim se fazia a luz. O lugar era lindo. Sempre amei a natureza. Tinha árvores frutíferas por todos os lados da casa, feita de madeira e pau a pique, onde se ouvia o barulho do laguinho que se formou na nascente.

Yuri parecia ter uma queda por Bia, que nem desconfiava, sapatão em início de carreira, quando se descobre, só quer saber de vulva, vagina, bucetas, tetas, tipo isso. Penso eu, gay, um tanto tapado e tarado desde pequeno. E onde está Yago? Me dispersei em pensamentos e o perdi de vista por alguns segundos. Ali! Meu príncipe – pensei. Vamos nadar? Praticamente impôs Yago, que só falava em tom um tanto autoritário – o que eu adorava. E daí? E daí que fomos!

Entramos em outra trilhinha no meio da floresta e andamos só por uns dez minutos, com o Yago na frente, eu atrás, Bia e Yuri na sequência, formando uma fila indiana. De repente surge um lago in-crí-vel, que nos recepcionava com raízes que corriam pelo chão que ia submergindo. No meio da floresta fechada. Água geladíssima, num dia gelado.

Entrei. Fui seguindo o Yago, que descalço entrava no lago só de cueca branca e um casaco que ele estava prestes a retirar. Ele estava de costas para mim, sua bunda, marcada naquela cueca, me guiava. E só aí, percebi que Bia e Yuri, haviam sumidos. Será que Bia não é sapatão? Estive errado esse tempo todo? Ou ela estaria me ajudando, nos deixando sozinhos? Vai ver o radar dela despertou também comigo e ela sacou tudo…Bunda! Voltei a realidade com a cena da bunda do Yago de cueca branca e agora molhada, grudada e transparente.

Caminhando no lago, Yago chegou na altura de sua cintura, ele já tinha tirado o casaco e estava pendurado numa árvore caída, seca, que atravessava o lago. Ele mergulhou. Eu parei com a água no joelho. Ainda estava de bermuda – percebi. Rapidamente retirei e fiquei só de cueca e camisa – tinha vindo do Rio de Janeiro, não tinha levado casacos, só em Minas que descobri o que era frio e que quase sempre tinha que sair de casaco.

Yago se levantou do mergulho e olhou para dentro dos meus olhos, franziu a testa e foi abaixando seu olhar até parar na minha cueca estufada com minha ereção. Ele então riu. Desviou os olhos de mim e só então percebi o quanto ele era lindo também de perfil até ele se virar novamente e me ver tampando com as duas mãos a minha ereção.

– Ou, fica calmo. Acontece com todos nós!

E o pau dele também estufou sua cueca, me trazendo um senso de proibido e gostoso. Me acalmou. Pela primeira vez me senti compreendido e não mais sozinho no mundo. Ficamos ali, um olhando o outro, alisando por cima da cueca os nossos jovens caralhos. Nada mais aconteceu, só foi a melhor experiência da minha vida até aquela data. Quando ainda eramos adolescentes. Poxa…isso faz tempo.

Por Roosevelt Soares.

Notas de um ser em reconstrução

Descobri que antes das 11h. eu não funciono bem. Mas quando acordo naturalmente cedo, eu adoro. E que gosto de rotina no dia a dia (isso foi uma surpresa). Gosto de tudo sempre no seu lugar (aquele que eu defini/isso em relação a objetos e coisas). Gosto de organização no meu canto. No canto dos outros não ligo para o caos. A minha cabeça também já fez do caos uma rotina em algum tempo.

Gosto de hora marcada, apesar de nem usar relógio (a não ser do Cel e os das ruas). Sou um pouco procrastinador, porque passo longas horas pensando em 10 coisas ao mesmo tempo, então estou aprendendo e já até evolui bem em focar em uma coisa de cada vez, o que aumentou minha capacidade de realização. Gosto do meu prato de comida exatamente dividido em 3 áreas, metade do prato com uma colher de feijão, um terço de arroz ou duas colheres rasas de arroz, no canto esquerdo, sempre, e no outro terço, proteínas e vegetais, com uma colher de farofa no cantinho esquerdo do feijão. Preciso perder esse toc alimentar rs. Reaprendi a ser solteiro e gostar disso. Confesso que sexo para mim é algo íntimo e de entrega, então não rola mais no primeiro encontro ou com qualquer um, tem que me conquistar (ui, que puritana). Gosto infinitamente mais de corpos com cérebros efervescentes, transgressores, desafiadores do que só a apresentação estética dos corpos. Mas aprendi a gostar de academia, lugar que nunca nem sonhei em entrar, tinha até preconceito, mas entrei quando me vi em uma situação decadente, porque eu tenho um lado autodestrutivo forte, que está sendo domado com lutas diárias. Compreendi que não tenho o mínimo preparo psicólogico para viver em outros paises e perder a chance de ver meus familiares e amigos (sou extremamente familiar) envelhecer, juntos, apesar de saber que um dia vou experimentar algumas temporadas fora do país, por diversão ou aprendizado, mas acho baixo o índice de me mudar de fato para outro país (a não ser que eu pudesse levar e bancar umas 40 pessoas queridíssimas comigo). Não que desgoste de sair da zona de conforto, viver aventuras, conhecer gente nova. Não. Mas não preciso sair do país para ter tudo isso.

Nãoexiste mais festas em boates ou shows imperdíveis. Se eu tiver meio de transporte fácil, grana e saber que vou encontrar no evento um lugar que possa dançar sem esbarrar nos outros ou ser obrigado a pular junto com a massa porque não dá pra sair dali (já vivi isso em metade da minha vida) eu até vou. Porém, prefiro hoje ver na tv, YouTube, escutar no SoundCloud, Spotify, Stories, ligados num bom boombox, no meu camarote em casa, refrigerado, com comes e bebes…Minha bebida preferida é a água de jarro de barro. A segunda preferida é o café. Amo sentar com amigos, beber (e isso inclue água e café ou chá) ou fumar uns e trocar uma infinidade de ideias sobre tudo e todas as coisas. Não chamo mas ninguém de tia. Tenho plena consciência da minha idade e já tenho bastante tias de sangue. Não gosto mais do twitter (acho caduco). E acredito firminente que a arte transforma vidas de forma pessoal e em massa. Notas de um ser em reconstrução.

Por Roosevelt Soares.

O encontro

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Nos encontramos na porta do mercado, na esquina da minha rua. Faltavam cinco minutos para às dez, hora do mercado fechar. Ele estava indo comprar qualquer coisa, eu estava indo comprar cigarro na banca de jornais em frente. Bancas essas que agora vendem de tudo para se fumar, menos a erva, apesar de que, rola um boato que até a erva se for pedida da maneira certa, com um tal aí, você compra. Mas isso não importa agora nessa narrativa; antes de tudo vem o nosso encontro naquela noite. Ele estava só de bermuda e sandálias havaianas brancas, que realçavam sua pele moreno bronzeado. Magro, mas de uma forma sexy, com todos seus músculos se apresentando suavemente sobre a forma do seu corpo. E quando digo de uma forma sexy, não quero afirmar que no geral magros não sejam sexy. São! Não precisamos problematizar isso agora. Afinal, acabei de me lembrar que deixei a água esquentando na chaleira, para passar um café noturno. Pois é. Café me faz dormir. Sempre fui meio ao contrário mesmo, já dizia meus avós. Um embolado de pensamentos que se atropelam. É esquisito explicar. Eu sou esquisito. Mas suponho que isso não seja uma novidade para você. Ou então teria que te insultar e talvez ter que usar o termo “bobinho”, assim, tentando ser fofo enquanto te apunhalo. Mas que coisa. Estou desviando do assunto de novo! Faço isso quando estou nervoso. Estávamos então falando do encontro. Bora lá…Não nos víamos há semanas. Desde quando nos encontramos para ver o pôr do sol de Itacoatiara, fumar uma maconha na pedreira do Costão e papear. Pelo menos essa era a versão oficial. A verdade, é que queríamos trepar, você tá me entendendo? Era nesse nível, na real. Mas rolou toda essa bosta de joguinho da sedução. Eu segui o script porque ele é desses. Se sente uma donzela que deve ser cortejada. Eu ri quando pensei nisso, e ele nem percebeu porque estava como sempre falando só dele e sua nova futura vida de casado. Nesse ponto você já percebeu tudo. Ele queria uma trepada entre dois machos, brincar com outra pica que não seja a sua. Percebeu ou foi uma ejaculação precoce de pensamento meu? Aff. Não me importa. Vou concluir logo para não tomar mais do seu tempo, afinal deixei mesmo a chaleira em casa esquentando a água para poder passar um café noturno. A essa hora ela já deve estar apitando. Mas isso eu não tô explicando pra você não, tecnicamente estou dizendo isso agora para ele. Para você, o que faltou revelar é que em nosso último encontro pegamos fogo, roçamos nossas almas e corpos, e não passou dai. Ele estava se despedindo de mim, e não terminou com o principal: me foder enlouquecidamente! – A chaleira deve estar apitando. Que tal tomarmos um café juntos? Ele até esqueceu o que ia comprar. O brilho no seu olhar revelava só perversões e deliciosos pecados. Fomos a pé até minha casa. Abri o portão, entrando ele me puxou para dentro, enfiou a mão por dentro da minha bermuda, arrebentando o botão que a fechava e penetrou sua língua dentro, no fundo da minha boca. Tateando com as mãos, procurei encontrar o portão e boom…tranquei ele na cara do leitor.

Por Roosevelt Soares.

Ciclos

Essas coisas de abertura e fechamento de ciclos eu acho muito piegas. Mas não nego que eles existem e trazem mudanças e transformações em nossas vidas. Por diversas vezes você passa por tempestades destruidoras e você se pergunta o que fez de errado (o religioso amedrontado, pensa em questionar Deus, mas termina entregando tudo em suas mãos). Aí o tempo passa e de repente você entende tudo. O que você vive, seja bom ou ruim, te ensina, te amplia horizontes. E você se sente curado, respondido, em plenitude com essa pequena dedução da compreensão quando ela pousa suave ou catártica em sua cabeça. Será que o humano já nasce programado para ter fé ou, para buscar e achar respostas (ou ao menos tentar)? Como um viciado? Eu não sei. Tenho teorias que sim. Mas o fato é que hoje me sinto atravessando o portal para um novo e ridiculamente sentimental, ciclo.

Por Roosevelt Soares.