IMPULSOS

Escreva em caixa alta! Grite! Ligue o som no máximo – ajuste bem o grave. Deixe os vizinhos chamarem o sindico, a polícia. Dance desengonçadamente. Beije com lingua de polvo e complexo de aspirador de pó. Use uma droga. Se intorpeça. Corra nu. Fique sóbrio e sinta o horror. Penetre alguém! Seja penetrado! Trepe aos berros! Peça para ser sufocado até ficar roxo. Respire fundo. Brinque de roleta russa – só você, só uma bala! Espalme os dedos da mão sobre uma superfície reta e bata uma faca afiada e ponteaguda com velocidade acertando os meios dos seus dedos. Lamba uma navalha – mas não se corte. Suba no lugar mais alto e imagine ter asas – sinta o vento e o impulso de se tacar. Jogue ovo podre na casa ou em algum político. Deixe um buque de flores pra alguém que você odeia – e assine. Siga alguém sozinho no meio da escuridão. Sente na mesa de algum grupo e lance uma questão filosófica profunda – faça cara de psicopata. Fure seu dedo com uma agulha e prove do seu sangue. Deixe gotejar num papel branco e incontre um significado impossível. Agora volte a dormir!

Por Roosevelt Soares.

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 TEXTO OBSCURO CAP.3

​O que é a morte se não o desligar – se por completo do seu corpo, mente, lembranças, matéria, do planeta, do Cosmos. Não me parece tão ruim! Aqui sentado ao lado das árvores secas de outono, caem, e parece – me uma vida inteira acontecendo conforme o seu cair. A única diferença – e não tenho certeza disso – é que parece que caímos com mais cor, porém com a mesma resiliência. O que fica é uma cama de retalhos que retalham a memória.

O meu deitar é transversal, gosto de ocupar e sentir as duas metades da cama e me cobrir só até a altura do umbigo – um pouco acima, um pouco abaixo.Eu disse para a minha psiquiátra que a maconha e o álcool quando bem dosados, tinham me devolvido, sendo medicado diariamente, me dando a sensação de ser um zumbi. Que aquilo – a maconha e o álcool -, acordaram, me devolveram a criatividade e agora ela estava berrando com fúria contra a sua prisão. Veio para explodir! 

“They tried to make me go to rehab, I said, “no, no, no”. Yes, I been black, But when I come back, you’ll know, know, know”, eu dançava ao som da minha playlist e dançava mais ainda em cima do local onde eu escolhi para morrer enforcado. É em frente a um espelho que se vê dos pés à cabeça. Eu sempre me via ali refletido, enforcado, mas ainda vivo, dançando com a corda o pescoço.

Minha cara Amy, não me leve hoje, porque possuo inveja de você. Não dá sua dramática vida, mas da sua prematura morte. Amy, estou falando coisas desconexas. Estou afundando. Extremamente deprimido. Mas ainda consigo dançar no escuro dos meus olhos fechados – será um convite para a escuridão? Não sei porque exatamente estou assim, pois mesmo com motivos concretos ou não, esse é um estágio que sempre entro e me perco da trilha de volta pra casa.

Minha corda para o enforcamento já está pronta e já afixei um gancho de rede de balançar, na parede – espero que esse me aguente e não me derrube no chão como da última vez. Sabe, não que eu vá me enforcar agora, mas só de saber que o gancho está ali, a corda pronta, já me tranquiliza.

Não posso morrer agora. Minha família está passando um drama. Meu pai esta fazendo hemodiálise, minha mãe de 67 anos está se esforçando pra cuidar dele e de toda a família. Como uma âncora! Não posso partir agora e deixar mais esse rombo na família. Mas a minha real vontade é de me mandar. Não sei como lidar com isso. Se grito. Choro. Escrevo….

Por Roosevelt Soares

TEXTO OBSCURO CAP.2

Eu o via ali, sempre sentado no sofá vermelho da varanda. Ele sempre estava fumando. Ele iniciava com maconha e terminava com um cigarro – sempre nessa ordem. E nunca o via sem seu casaco preto de capuz. Pouco se via da sua pele muito branca e o cabelo sempre colorido. Era um garoto misterioso e sombrio, que as vezes saia na escuridão de luzes apagadas, com morcegos voando em volta do sofá vermelho e ele se sentava ali no meio e cumpria seu ritual de madrugada – talvez tivesse com insônia. Disse o vizinho que observava na espreita da sua janela do segundo andar que da de lado para quarto do suicida. Continuou – nunca pensei que ele se suicidaria ali, dentro do seu quarto. Fiquei chocado com a notícia – confessou o vizinho ainda atordoado, por morar ao lado de um jovem suicida do qual nada pode fazer para ajudar. – Soube que ele foi encontrado dormindo, ao lado de um boombox tocando músicas calmas. Pelo menos parece que ele não sofreu – continuou devagando o vizinho – mas o seu celular estava carregando, me pergunto porque se não haveria amanhã. Pra mim isso me diz que ele decidiu isso hoje a tarde, depois de colocar o celular pra carregar… caramba, podíamos ter salvo ele… ou… na verdade o boombox era via bluetooth…putzs…É isso. O celular tinha que ficar carregando para a música não parar. Provavelmente ele pensava que demoraria para morrer, mas o horário do óbito diz que só demorou meia hora. Soube também que ao seu lado ele havia terminado com três pacotes de cigarros e havia bingas e cinzas por toda a parte…como as que ele é agora. Qual teria sido o seu último pensando? 

Nesse momento. Eu. O escritor. Preciso interromper a narrativa para dizer qual era o seu último pensamento porque foi eu que escrevi e estou lá, no meio da cena.

Ele já não pensava mais em nada. Seus pensamentos da realidade que o cercava foi rapidamente tomada por delírios e sua mente estava há quilômetros daquele quarto. Sem dor. Sem sofrimento. Apenas leve, flutuante, como a mente de um recém nascido.​

Por Roosevelt Soares.

TEXTO OBSCURO – CAP.1

TEXTO OBSCURO – CAP.1

O lugar físico, depois de você, mais egocêntrico do mundo é o seu quarto – sua cama no centro ou de lado, todos os objetos ao seu redor e, voltados para você, como discípulos de um ser supremo, o criador. Ali você deita e se torna o centro do mundo. Você é capaz de controlar o passado, o presente diante de ti e construir o seu futuro – ilusório ou não. Você sonha e isso é como ser um Mago. Eu gosto de visitar quartos porque eles falam tudo sobre quem confia dormir ali. Eu gosto pouco de quem se mata em seu próprio quarto, mas prefiro aqueles que em seu último ato, escolhem morrer longe de seus quartos, fora de suas zonas de conforto. Ah…eu gosto de analisar suicidas, acho que são as pessoas mais interessantes do planeta. Mas voltando ao assunto, o cenário que escolhem os suicidas, me pergunto porque, não morrer numa suíte presidêncial do Copacabana Palace ou do Fasano, tendo a melhor vista do Rio de Janeiro, a melhor vista do mundo pulsando por todas as janelas ao seu redor, explodindo existência e te tentando a ficar, mas você só querer sair dali num saco do IML, sem pagar a conta de nada, morrer caloteiro ou aventureiro, você escolhe, vilão ou herói.

Por Roosevelt Soares

Sobre ele

Ele me abraçou e silenciou minha boca com um beijo longo e molhado. Sem ar, abri os olhos tentando enxergar, se afastando lentamente, mas sendo segurado pelo rosto com suas mãos grossas analisando toda minha fisionomia ao mesmo tempo em que deslizava os dedos ao afastar meu cabelo o bagunçando. Lugares mudos entre a barba cerrada e o franzir da testa, viril e decomposto com um sorriso indecente de menino guloso. Há dentro de mim um novo desejo de destruir, uma ligação à natureza selvagem e a página descoberta, em aberto, pronta para ser escrita junto a boca procurando conter as coisas que acontecem nas cabeças em chamas. A pele e o que se mistura. O dentro indecifrável. As bocas de mãos dadas. Mutua posse. À pouca gravidade e o recíproco calor de corpos se roçando como feras.

Por Roosevelt Soares

Quantas pessoas invisíveis você deixou de ver hoje?

Às vezes, e tenho muito utilizado essa locução adverbial de tempo. A única coisa que você deseja é chegar ao fim do dia vivo e com sobreviventes a sua volta, sem ter quebrado nenhuma fina camada dessa realidade egoísta com sua rispidez aleatória. Quando foi que nos tornamos invisíveis? Não há mais “bom dia/tarde/noite”, o que existe é um passar de pessoas apressadas indo ou voltando de algum lugar cujo você não foi convidado. Mas você também vive esses dias. Quantas pessoas invisíveis você deixou de ver hoje só pela ânsia de fazer girar o seu maldito dia? Eu tento contar e numera-las na cabeça, só para tentar ser alguém que se importa. Mas me importo com o quê? Com elas ou comigo? É para me satisfazer ou para de fato tentar fazer do meu micro universo um lugar mais populoso, plural e humano. Voou com falas desconexas que ouço nas ruas e tento decifrar como se fossem códigos enquanto ando de cabeça erguida pois quero enxergar todos, da altura da rua, lá no fundo, até aquela janela indiscreta onde uma senhora fuma atrás das grades do seu apartamento desbotado no décimo andar. As frestas das janelas são surpreendentes. Pode se ver casais aparentemente apaixonados ou só no meio de uma foda casual como desconhecidos que marcaram aquilo por algum aplicativo de pegação, como podem nos mostrar a relação do humano com seus relicários ou costumes corriqueiros – regando uma plantinha murcha. Todos indo em frente, empurrando o dia que se constrói a golpes de extremo tédio se não houvesse a grande ilusão da rotina e do destino pelas quais a fazem caminhar, sonhar e ir adiante nem que tenha que atropelar tudo. Me sinto carente ao mesmo tempo que me sinto contemplativo e apático, sem nenhuma vontade de interagir com humanos-grudados-em-seus-gadgets e tentando de alguma forma burlar as regras dessas cidades zumbis enquanto sento calmamente ao lado de pombos, num banco que fede a urina humana e acendo o meu cigarro cancerígeno para curtir o fim do mundo.

Por Roosevelt Soares