Sobre ele

Ele me abraçou e silenciou minha boca com um beijo longo e molhado. Sem ar, abri os olhos tentando enxergar, se afastando lentamente, mas sendo segurado pelo rosto com suas mãos grossas analisando toda minha fisionomia ao mesmo tempo em que deslizava os dedos ao afastar meu cabelo o bagunçando. Lugares mudos entre a barba cerrada e o franzir da testa, viril e decomposto com um sorriso indecente de menino guloso. Há dentro de mim um novo desejo de destruir, uma ligação à natureza selvagem e a página descoberta, em aberto, pronta para ser escrita junto a boca procurando conter as coisas que acontecem nas cabeças em chamas. A pele e o que se mistura. O dentro indecifrável. As bocas de mãos dadas. Mutua posse. À pouca gravidade e o recíproco calor de corpos se roçando como feras.

Por Roosevelt Soares

Quantas pessoas invisíveis você deixou de ver hoje?

Às vezes, e tenho muito utilizado essa locução adverbial de tempo. A única coisa que você deseja é chegar ao fim do dia vivo e com sobreviventes a sua volta, sem ter quebrado nenhuma fina camada dessa realidade egoísta com sua rispidez aleatória. Quando foi que nos tornamos invisíveis? Não há mais “bom dia/tarde/noite”, o que existe é um passar de pessoas apressadas indo ou voltando de algum lugar cujo você não foi convidado. Mas você também vive esses dias. Quantas pessoas invisíveis você deixou de ver hoje só pela ânsia de fazer girar o seu maldito dia? Eu tento contar e numera-las na cabeça, só para tentar ser alguém que se importa. Mas me importo com o quê? Com elas ou comigo? É para me satisfazer ou para de fato tentar fazer do meu micro universo um lugar mais populoso, plural e humano. Voou com falas desconexas que ouço nas ruas e tento decifrar como se fossem códigos enquanto ando de cabeça erguida pois quero enxergar todos, da altura da rua, lá no fundo, até aquela janela indiscreta onde uma senhora fuma atrás das grades do seu apartamento desbotado no décimo andar. As frestas das janelas são surpreendentes. Pode se ver casais aparentemente apaixonados ou só no meio de uma foda casual como desconhecidos que marcaram aquilo por algum aplicativo de pegação, como podem nos mostrar a relação do humano com seus relicários ou costumes corriqueiros – regando uma plantinha murcha. Todos indo em frente, empurrando o dia que se constrói a golpes de extremo tédio se não houvesse a grande ilusão da rotina e do destino pelas quais a fazem caminhar, sonhar e ir adiante nem que tenha que atropelar tudo. Me sinto carente ao mesmo tempo que me sinto contemplativo e apático, sem nenhuma vontade de interagir com humanos-grudados-em-seus-gadgets e tentando de alguma forma burlar as regras dessas cidades zumbis enquanto sento calmamente ao lado de pombos, num banco que fede a urina humana e acendo o meu cigarro cancerígeno para curtir o fim do mundo.

Por Roosevelt Soares

Flanar

Não sei como vim parar aqui. Talvez dentro de uma tempestade, um furacão como aquele em que Dorothy voou. Às vezes doí. Às vezes sinto cocegas no estomago. Nem sempre quero engolir o mundo, mas cuspi-lo, vomitar. É meio montanha russa. Às vezes é agradável. Às vezes é só fumaça e álcool com um pouco de dança desengonçada em que meu corpo balança de lá e para cá. Eu ando sem relógio, nunca tive um. Flano só para ver as rachaduras das estruturas, o encardido, o musgo e encontrar vida onde não se é esperado. Trepo na minha sombra quando ela foge a galopes e quase caio, meio zonzo. Gargalho como um louco solitário. Nada tem nenhum sentido exato que eu não possa distorcer e rir por pura diversão. Quando ouço Sigur Rós sinto meu corpo levitar e gosto tanto dessa sensação que poderia deixar tocando em repeat, levitando, levitando…. Tenho andado meio entorpecido. Distante demais dessa terra barulhenta numa vã tentativa de não contaminar minha essência, apesar de nem saber do que ela é feita ou do que ela se alimenta. Mas só às vezes. É raro e tem gosto de chocolate que vai derretendo na boca aos poucos.

Por Roosevelt Soares.

A mulher misteriosa

Uma mulher de salto alto agulha, com uns 15 centímetros, fumando como se fosse a coisa mais charmosa do mundo, vestindo um casaco que imitava pele, adentrou o bar que eu estava. De cabelos afro, ela retirou o casaco e os sacudiu como se fosse um comercial de shampoo, em câmera lenta. Ela caminhou como se desfilasse e foi até a juicebox colocando um som do anos 80, bem agitado, para dançar. Eu estava no canto da juicebox, quase escondido, mas hipnotizado por ela, atrai seu olhar e ela e me chamou. Eu já tinha tomado algumas doses alcoílicas e fui até ela com bastante vergonha apesar do álcool me dizer para me entregar aquele momento. Eu, apaixonado pelos anos 80, dançamos como se o tempo tivesse retrocedido.Foi um instante de levitação! Eu levantei um cigarro do bolso e ela o acendeu com a boca encostando na minha, de ladinho para que a chama escorresse de um cigarro para o outro. Eu não tentei descobrir quem era aquela mulher misteriosa, apenas me entreguei a ela e embarquei em sua energia. Um pouco antes do fim da música ela segurou minhas mãos e me levou até o bar, pedindo dois dry martinis. O seu batom vermelho manchou a beirinha do copo e logo depois manchou suavemente a minha boca quando ela veio em minha direção mirando o meu olhar, sem qualquer permissão para fazer aquilo. Era uma mulher perfeita, decidida, mas eu sabia que também era um travesti que por sorte, caiu nos meus braços, porque eu me sentia o único a acolher aquela mulher especial e a levar ao paraíso. Não papeamos, foi só olhar, dança, sinuca e muitos beijos. Antes de sair, não peguei o seu telefone, apenas um táxi que ela mesma parou. E que surpresa, o táxi tinha me levado exatamente para o seu quarto em Copacabana. O resto da noite não preciso contar, mas posso garantir que foi única.

Por Roosevelt Soares

Wait…

Quer namorar comigo? Espere…me de um tempo… Preciso ajudar aquela idosa atravessar a rua, desviar de umas pessoas que andam apressadas e de cara fechada, chegar ao meu trabalho, apertar teclas de um computador, esperar o sino da capela da praça em frente tocar seis badaladas, sair pela escuridão, desviar de uma centena ou milhares de pessoas que passam apressadas e lotam vagões e ônibus, ficar em pé ouvindo música, olhar ao redor te procurando, abrir a porta de casa, entrar, abrir a janela, olhar as estrelas, contar as poucas que vejo através do vão que se forma entre os prédios, sentir um calafrio, ouvir a sirene de uma ambulância passando na rua, fugir para o meu quarto, fumar um cigarro enquanto coloco uma música para tocar na vitrola que herdei de vovó, dançar sozinho até o telefone tocar, eu dizer alô, ninguém responder, e cismar que era você, adormecer no sofá depois de umas cervejas e remédios, ao lado do telefone, com a agulha da vitrola agarrada num refrão de música romântica que eu não consigo esquecer. – “Sim! No sonho sempre você me pergunta e eu respondo de pronto que sim. Feliz dia dos namorados meu amor!” Mas antes… espere…preciso que os dias girem, que os planetas se alinhem novamente, que Saturno esteja em oposição ao Sol e que naquele exato momento eu consiga te reconhecer. Mas antes…espere…

Por Roosevelt Soares.

Solteiros caminhantes

Se me perguntam, digo que estou casado e saio pela esquerda, bem de fininho, rindo baixinho enquanto pego outra taça de champanhe que passa por mim e desapareço em meio a multidão. Não que eu goste de mentir, mas porque preciso desses momentos onde andarilho sozinho com meus versos, ideias, projetos e mentirinhas etílicas aqui e acolá. Um dia talvez reencontre aquele fogo do amor, pois o da paixão eu já tenho todos os dias ao meu lado. Aliás, por todos os lados. A cidade é linda não é. Em cada esquina uma paixão, como diria meu amigo amado. Mas na cama, é solidão-entretida, horas de viagens internas por pensamentos que precisam ser mastigados e digeridos. Com licença, estou em mutação – me conforto mentalmente. Não que eu goste ou desgoste. Não é sobre isso. É sobre finalmente estar bem e saber que vive exatamente o caminho que deveria estar e bem antes do encontro Dele. O próximo, a fila anda – diria uma outra amiga mais malandra. Por que a vida é assim. Um momento nos leva a outro e num piscar de olhos, tudo acontece de novo. Um salve aos casais. E um salve especial aos solteiros caminhantes.

Por Roosevelt Soares.